21/09/2015

ARTIGO: Desemprego no ajuste fiscal, por Marcio Pochmann

O sentido geral das mudanças registradas no interior do mercado de trabalho em função da adoção de políticas de ajuste econômico aponta para a elevação da taxa de desemprego. Nas últimas três décadas, a recessão provocada entre os anos de 1981 e 1983 e de 1990 e 1992 levaram à trajetória de alta no desemprego no Brasil de 137% e de 89%, respectivamente.

Também na crise do Plano Real, em 1998 e 1999, as políticas de ajustamento econômico trouxeram impactos negativos para o comportamento do mercado de trabalho. A taxa de desemprego no referido período subiu quase 30%.

Da mesma forma, constata-se no ano de 2015 o avanço da recessão econômica. Seus efeitos sobre o desemprego não tardaram a aparecer e se apresentam significativos.

Em apenas sete meses, a taxa de desemprego do Brasil metropolitano subiu acumuladamente 41,5%. Se confirmada essa evolução nos próximos meses, o ano de 2015 se constituirá na terceira maior elevação na taxa de desemprego dos últimos 35 anos.

A elevação recente na taxa de desemprego no Brasil não se apresenta homogênea entre os trabalhadores. Enquanto a taxa de desemprego cresceu relativamente mais para as mulheres (43,3%), para os homens ela cresce levemente abaixo (40,4%). Com isso, a taxa de desemprego feminina que era 27,7% superior à masculina em janeiro de 2015, passou a ser 30,3% em julho do mesmo ano.

Do mesmo modo, a evolução da taxa de desemprego segundo a faixa etária dos desempregados nos primeiros meses de 2015 seguiu diferenciada. A desocupação cresceu menos para a faixa etária de 15 a 17 anos (19,3%), ao passo que para trabalhadores de 50 anos e mais de idade, a taxa de desemprego aumentou 45,4% entre janeiro e julho de 2015. Nas faixas etárias de 18 a 24 anos e de 25 a 49 anos, o crescimento da taxa de desemprego foi de 43,4% e 44,2%, respectivamente.

Em relação ao grau de escolaridade, nota-se também que a trajetória recente do desemprego tem sido mais intensa e inversamente ao aumento dos anos de estudos. Assim, por exemplo, a taxa de desemprego cresceu 34,6% para os trabalhadores de 11 e mais anos de escolaridade entre os meses de janeiro e julho de 2015.

Para os trabalhadores com até 8 anos de escolaridade, a taxa de desemprego cresceu 52,4% no mesmo período de tempo. Entre os trabalhadores de 8 a 10 anos de estudos, a taxa de desemprego aumentou 49,3%.

Por fim, observa-se a evolução diferenciada da taxa de desemprego entre as seis principais regiões metropolitanas durante os primeiros sete meses do ano. Nas regiões metropolitanas de Salvador (28,1%), Recife (37,3%) e São Paulo (38,5%) a taxa de desemprego cresceu menos que no Rio de Janeiro (58,3%), Porto Alegre (55,3%) e Belo Horizonte (46,3%).

Por conta disso, o ano de 2015 pode ser compreendido com um ponto de inflexão no comportamento do mercado de trabalho desde o início dos anos 2000. Após vários anos de trajetória de queda, a taxa de desemprego do Brasil metropolitano voltou a crescer significativamente, chegando a ser 41,5% superior no mês de julho em comparação a janeiro de 2015.

Para os meses de janeiro a julho de 2014, por exemplo, a taxa de desemprego foi 2,1% maior, sendo de 3,7% superior em 2013 e de 1,8% inferior em 2012. O excedente de mão de obra criado pelas políticas de ajuste econômico somente poderá ser contido com a retomada do crescimento econômico.

Marcio Pochmann é professor do Instituto de Economia da Unicamp (SP)


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