Greves na Europa aumentam pressão contra pacotes de austeridade

Uma nova tendência subliminar vem ocupando o discurso conservador
hegemônico na União Europeia e em particular na Zona do Euro: são as
contínuas greves que estão “aleijando” as economias imersas na crise das
dívidas públicas, como no caso da Grécia.

As greves “paralisam” a economia, “bloqueiam” a vontade política de
adesão entusiástica ou resignada aos “imprescindíveis” planos de
austeridade, sem os quais aqueles países, “inevitavelmente”,
mergulhariam “no caos” – como se já não estivessem mergulhados no caos.

Novamente vem à baila o caso grego. Se o Parlamento de lá não votasse os
novos capítulos do plano de austeridade nesta semana que ora termina, a
Grécia teria de abandonar a Zona do Euro, as poupanças seriam
pulverizadas, a dívida pública iria para a estratosfera, o desemprego
campearia à solta… Só falta um detalhe neste pensamento: constatar que
o que ele prevê para um futuro sem o euro já está acontecendo agora,
com o euro.

Dessa forma transformam-se os grevistas em “arautos do caos” e, é claro,
sem mencionar isso extrovertidamente, justifica-se a repressão sobre
eles. Ainda mais quando, “inevitavelmente”, as manifestações descambam
em tumulto. Claro: sempre há os que buscam o tumulto. Na semana que
passou, por exemplo, enquanto o Parlamento grego debatia e votava os
novos cortes orçamentários, aumentos de impostos, novas
“flexibilizações” nas leis de proteção ao trabalho etc., mais de 100 mil
pessoas fizeram manifestações pacíficas na praça em frente, durante os
dias de greve (três, de segunda a quarta).

Mas um pequeno grupo tentou forçar a passagem pelas barreiras
levantadas, e houve um enfrentamento com a polícia: pronto, isso foi
suficiente para que esse capítulo ocupassem manchetes e fotos garrafais,
obliterando o resto.

As novas determinações do plano de austeridade passaram, mas por uma
margem mínima. Dos 300 parlamentares, 153 votaram pela aprovação. Seis
deputados socialistas se rebelaram e não aprovaram as medidas, junto com
um do partido do primeiro-ministro Antonis Samaras. Foram todos
imediatamente expulsos de seus respectivos partidos, mas isso não impede
a constatação de que a base do governo se estreitou consideravelmente.

Enquanto isso, os movimentos grevistas tendem a se ampliar na semana que
vem. A Confederação Europeia de Sindicatos declarou o próximo dia 14,
quarta-feira, uma jornada de luta em toda a Europa. Haverá diferentes
graus de adesão à proposta. Espera-se uma “greve geral ibérica”, tomando
conta de Portugal e Espanha. Espera-se também uma adesão importante na
Itália e na Bélgica.

Nesse dia haverá pelo menos manifestações de rua massivas na França,
onde cinco centrais sindicais – inclusive a CGT – as estão chamando, em
diversas cidades. Esperam-se as decisões em Chipre e Malta. Haverá
também manifestações na Áustria, Polônia, Dinamarca, Reino Unido,
Holanda, Suíça, Suécia, Finlândia, Romênia, República Tcheca e
Eslovênia.

Na Alemanh, a DGB – a central sindical social-democrata – está chamando
uma manifestação em frente ao Portão de Brandemburgo, em Berlim, quando
uma carta deverá ser encaminhada à chanceler Angela Merkel. Deverá haver
manifestações também em outras cidades, como Hamburgo e Munique.

Ainda não se sabe o que ocorrerá na Grécia. Em princípio deveria haver
uma adesão massiva à greve geral, mas como a votação do plano de
austeridade “puxou” manifestações nesta semana que ora finda, pode ser
que o fôlego dos manifestantes esteja algo comprometido.

Há muita expectativa em torno do grau de adesão, de como ocorrerão as
manifestações, sobre qual será a reação da mídia e se isso significará
um aumento de pressão dos trabalhadores no plano da política
institucional. A ver, no dia 14 e depois.

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