Nesta terça-feira
(23), o massacre que marcou as escadarias da Igreja da Candelária,
no Rio de Janeiro, com o assassinato de 8 crianças e adolescentes
moradores de rua, completa duas décadas. As mortes ocorreram durante
uma ação policial, no dia 23 de julho de 1993, quando cerca de 70
crianças e adolescentes que dormiam nas proximidades do templo foram
alvejadas por policiais civis e militares. Quatro PMs chegaram a ser
presos, mas cumpriram apenas parte da pena.
Para lembrar o
episódio, na sexta-feira (19), centenas de pessoas participaram de
uma missa na igreja e fizeram uma passeata pela avenida Rio Branco
até a Cinelândia. “Esquecer é uma forma de permitir que aconteça
novamente. Lembrar é reagir”, disse Patrícia de Oliveira, irmã
de Wagner dos Santos, um dos sobreviventes da chacina.
“A
polícia age assim porque muitos deles sabem que poderão cometer
crimes e não serão punidos”, conclui Patrícia, que também faz
parte da Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência. Até
maio deste ano, por exemplo, foram registrados 101 homicídios
decorrentes de intervenção policial no Rio de Janeiro, segundo
dados do Instituto de Segurança Pública do estado.
Confira
abaixo entrevista concedida ao Brasil de Fato por Patrícia de
Oliveira, integrante da Rede de Comunidades e Movimentos Contra a
Violência:
Brasil de Fato – O seu irmão Wagner dos
Santos é um dos sobreviventes da Chacina da Candelária. O
depoimento dele ajudou a indiciar os policiais que sofreram processo.
Como é a vida dele?
Patrícia de Oliveira – Ele
foi a pessoa que possibilitou a criação do Programa de Proteção a
Vítimas e Testemunhas (Provita). Na época, não existia nada que
pudesse proteger testemunhas. Essa proteção ocorreu depois de
atentado sofrido na Central do Brasil. Ele levou 4 tiros na
Candelária e 4 depois na Central do Brasil. Agora ele mora fora do
Brasil há 19 anos, tem vários problemas de saúde em decorrência
desses tiros. A vida dele é bem complicada.
Na
Jornada Mundial da Juventude (JMJ), a Pastoral da Juventude vai
discutir o extermínio da juventude pobre no Brasil. Como você vê
essa situação?
Realmente tem acontecido esse extermínio
da juventude, principalmente a juventude negra. As nossas autoridades
deveriam ter colocado a Candelária no roteiro de visitas
do papa, mas, infelizmente, eles querem passar longe desse assunto.
Isso se explica porque mostrar a história da Candelária ao Papa é
admitir que acontece esse tipo de coisa no Brasil. Sem dúvida, é
mais fácil para eles dizerem que são apenas fatos isolados. No mês
passado, moradores da Maré também foram assassinados após
confronto com a polícia. Também temos o caso de Vigário Geral,
Acari e Borel.
Na sua visão, o que leva a polícia
carioca a agir dessa forma?
A polícia age assim porque
muitos deles sabem que poderão cometer crimes e não serão punidos.
Apenas meia dúzia vai para cadeia. Isso é dito, inclusive, pelos
próprios comandantes. O povo é tratado pela polícia como se fosse
inimigo, como se não fosse cidadão. Um exemplo claro disso são as
Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), onde os policiais fazem a
distinção entre cidadãos e favelados.
Os policiais
que participaram da chacina estão atualmente em liberdade. Como você
avalia essa situação?
Eles cumpriram a pena estipulada
e tiveram progressão de regime. Mas a impunidade não é referente
somente aos policiais. A impunidade abrange o descaso do governo que
não tem nenhuma política voltada à criança e ao adolescente em
situação de rua. Outro descaso do governo é não deixar funcionar
o Conselho da Criança e do Adolescente como deveria: é um órgão
no qual falta funcionário e verba.