O assédio moral é um
problema crônico que afeta trabalhadores no mundo inteiro. Mas é
nos bancos que atuam no Brasil que o assédio encontra um terreno
fértil e transforma a categoria bancária nas principais vítimas. O
problema é tão grave que o Ministério Público do Trabalho decidiu
agir e, desde outubro, tem realizado uma série de atos em todo o
país. Nesta quarta-feira, dia 13, o ato chegou ao Recife e contou
com a participação da presidenta do Sindicato, Jaqueline Mello.
Os
números apresentados durante o evento são assustadores. Segundo
pesquisa da Universidade de Brasília (UnB), todos os dias um
bancário tenta suicídio no Brasil. A cada 20 dias, um deles se
mata. Dados do INSS apontam que 21.144 bancários foram afastados do
trabalho no ano passado por adoecimento. Entre eles, 25,7% estava com
estresse, depressão, síndrome de pânico e transtornos mentais –
doenças relacionadas diretamente ao assédio moral.
Jaqueline
destacou que o assédio moral destrói a vida do trabalhador e também
acaba com as relações familiares. “Temos conseguido alguns
avanços na luta contra o assédio moral, mas ainda temos um longo
caminho a percorrer. Em 2010, conquistamos, de forma inédita no
país, a inclusão da cláusula de combate ao assédio na Convenção
Coletiva de Trabalho, renovada nas campanhas de 2011 e 2012 e
melhorada em 2013. Este ano também conseguimos a garantia de que os
bancos não podem enviar torpedos para o celular particular dos
bancários cobrando o cumprimento de metas. Mas o assédio moral
ainda é muito grande nos bancos e, por isso, aproveitamos para pedir
a ajuda de todos os órgãos que participam deste ato. Precisamos
criar um fórum permanente para tratar do assunto”,
disse.
Jaqueline lembrou que o Sindicato dos Bancários de
Pernambuco é pioneiro na luta contra o assédio moral e que, em
2003, a entidade liderou uma pesquisa nacional onde 40% dos bancários
relataram que já sofreram humilhações no trabalho. O levantamento
também mostrou que 61% dos trabalhadores bancários sofriam com
estresse, cansaço, tristeza, insônia e outros sintomas de natureza
psicológica (acesse aqui).
Solidariedade é o caminho – Além de Jaqueline,
participaram como palestrantes no evento Fábio André de Farias
(desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 6ª Região),
Fátima Lucena (professora da Universidade Federal de Pernambuco),
Felícia Mendonça (auditora fiscal do Trabalho), e Melícia Carvalho
Mesel (procuradora do Trabalho). Um ponto comum em todas as falas foi
a palavra solidariedade.
“O assédio moral não nasce de uma
mente doentia à procura de vítimas indefesas. Ele é fruto da
estrutura organizacional dos bancos, que a cada dia impõe metas mais
abusivas aos seus funcionários. Isso cria um ambiente de competição
tão grande que enfraquece as relações de amizade entre os colegas
e abre espaço para o assédio moral. A melhor forma de combatê-lo é
a solidariedade entre os colegas”, destacou Felícia.
Já
Melícia ressaltou que os laços de solidariedade são essenciais
dentro da empresa. “O assédio moral coisifica as pessoas, acaba
com a autoestima e provoca uma série de doenças que pode terminar
com a invalidez do trabalhador. Por isso é importante que as pessoas
sejam solidárias e denunciem o assédio moral ao seu sindicato,
mesmo que a vítima seja o colega, que muitas vezes não tem forças
nem para denunciar”, disse.
Todos os palestrantes também
destacaram o problema da organização do trabalho nos bancos e
colocaram as metas abusivas como o ponto de partida do assédio
moral. Para a professora Fátima, a competitividade e a lucratividade
são alicerces da lógica capitalista que têm causado dano à saúde
do trabalhador. “O conflito entre capital e trabalho continua firme
e, nos últimos anos, o trabalho tem perdido feio para o capital”,
afirmou.
O evento, realizado no auditório do MTE, também
contou com a participação de representantes do Banco do Brasil,
Caixa Econômica Federal, Banco do Nordeste do Brasil (BNB) e
Bradesco. Os bancos Itaú, Santander e HSBC também foram convidados,
mas não compareceram, o que gerou várias críticas dos
palestrantes. Ao todo, cerca de 50 pessoas estiveram presentes.
Cartilha do MPT – Durante o evento, o Ministério
Público do Trabalho lançou a cartilha “Assédio moral em
estabelecimentos bancários”, que divulga conceitos e exemplos para
esclarecer a categoria e a sociedade sobre o problema. O material foi
distribuído ao público e está disponível na internet, aqui.