Redes sindicais de bancos internacionais debatem crescimento e igualdade

Um total de 90 dirigentes sindicais de 14 países participou nesta quinta-feira (5), em Lima, capital do Peru, da abertura da 10ª Reunião Conjunta das Redes Sindicais de Bancos Internacionais. O evento é promovido pela UNI Américas Finanças e Comitê de Finanças da Coordenadoria de Centrais Sindicais do Cone Sul (CCSCS), com o apoio de sindicatos peruanos.

Estiveram presentes representantes de trabalhadores do Santander, BBVA, HSBC, Itaú, Banco do Brasil e Scotiabank do Brasil, Peru, Uruguai, Argentina, Paraguai, Chile, Colômbia, México, Costa Rica, Jamaica, Trinidad y Tobago, Antígua e Barbados, além da Espanha. O encontro termina nesta sexta (6).

Crescimento com inclusão social – Ao falar na mesa de abertura, o presidente da Contraf-CUT e da UNI Américas Finanças, Carlos Cordeiro, lembrou os 50 anos do golpe militar de 1964 no Brasil e aproveitou para pedir um minuto de silêncio em memória de todos os que tombaram nas Américas durante as ditaduras sangrentas. “Precisamos recordar para não nos esquecermos disso jamais”, frisou.

O dirigente sindical reafirmou a necessidade de transformar crescimento econômico em desenvolvimento com inclusão social. Ele criticou a enorme concentração de renda que continua a existir. “No Brasil tem diretor de banco que ganha 190 vezes mais do que um caixa”, denunciou. “O continente segue muito desigual”, apontou.

Ele também defendeu emprego decente. “Não podemos permitir que o trabalhador perca o seu emprego”, disse ao lembrar os cortes de empregos dos maiores bancos brasileiros no primeiro trimestre deste ano. “Também não podemos permitir o assédio moral que adoece trabalhadores”, destacou lembrando também a insegurança que matou cerca de 70 pessoas no ano passado em assaltos envolvendo bancos.

“Nada justifica a enorme diferença entre a taxa de juros que o banco pratica na Europa e a que cobra na América Latina”, ressaltou Cordeiro. “Não queremos exclusão nos bancos, pois hoje os pobres são empurrados para correspondentes enquanto os ricos ganham atendimento especial”, acrescentou.

Transmissão de cargo – Após o pronunciamento, Cordeiro transmitiu o cargo de presidente da UNI Américas Finanças para Sérgio Palazzo, secretário-geral da Asociación Bancaria de Argentina (La Bancaria), conforme acordo feito durante a realização do último congresso do sindicato global. O dirigente da Contraf-CUT fez um rápido balanço da sua gestão.

“Fortalecemos as redes sindicais dos bancos internacionais, criadas na gestão do companheiro Vagner Freitas. Elas passaram a negociar com os bancos e conseguimos firmar dois acordos marcos globais: um com o BB e outro com o Itaú, garantindo direitos básicos para os trabalhadores em todos os países das Américas onde esses bancos atuam. Participamos de negociações em vários países, como Brasil, Argentina, Colômbia, Chile e Paraguai, defendendo respeito e dignidade. Abrimos caminho para a criação em breve de um sindicato de bancários nos Estados Unidos”, destacou Cordeiro.

Palazzo recebeu o cargo e aproveitou para dizer que “Cordeiro fez uma excelente gestão na presidência da UNI Américas Finanças”. O brasileiro agora passou a ocupar o cargo de vice-presidente.

Regulamentação do sistema financeiro – O secretário-geral da UNI Global Union, Phillip Jennings, fez uma palestra sobre a situação global e os desafios para os trabalhadores no mundo. Ele relatou os esforços feitos pela entidade para “romper barreiras” e organizar os sindicatos do setor financeiro, comércio e serviços em diversos países.

“Ainda estamos enfrentando a crise financeira e nenhuma economia se recuperou”, disse o dirigente do sindicato global. Ele criticou a política de austeridade na Espanha, Grécia e outros países, alertando que “as pessoas em todo o planeta não confiam no sistema financeiro”. 

“A experiência neoliberal foi um assalto aos direitos do trabalho e à negociação coletiva”, denunciou Jennings. “Os contratos sociais foram destruídos pelo setor financeiro e precisam ser recuperados”, defendeu. “A desigualdade é ruim para a economia”, ressaltou. “É hora de se levantar”, salientou.

O chefe mundial da UNI Finanças, Márcio Monzane, fez uma exposição sobre a situação do setor financeiro em nível global, apontando que a crise mostrou a necessidade de mudar o modelo, com regulamentação, controle e fiscalização. “Havia uma falsa verdade de que o mercado podia se regular”, disse.

Márcio apontou as consequências para os trabalhadores, salientando impacto no emprego. “Cerca de 300 mil bancários foram despedidos após a crise financeira”, disse. Ele alertou também uma “crise humana” diante da perda do emprego, do incremento da terceirização, do aumento da pressão no trabalho, do crescimento dos problemas de saúde e da diminuição da negociação coletiva.

“Ainda não temos um modelo para enfrentar a crise financeira”, destacou Márcio, salientando que nos Estados Unidos os bancos não cumpriram os acordos de Basiléia 1 e 2 e que aumentou a concentração do setor financeiro no mundo.

“Dentro da negociação coletiva, deve ser discutido o processo de reestruturação”, salientou o representante da UNI Finanças. “Os bancos têm que discutir a venda de produtos e a remuneração dos executivos”, defendeu. “Queremos um sistema financeiro sustentável que apoie a economia real”, frisou.

Redes sindicais – À tarde, as redes sindicais se reuniram para trocar experiências, analisar a situação dos bancos internacionais nos países onde atuam e construir uma nova agenda de lutas conjuntas para o próximo período. Os debates continuam na manhã desta sexta-feira (6).

E à noite os participantes ainda prestigiaram a solenidade de fundação da Federación de Trabajadores y Trabajadoras del Sector Banca, Finanzas y Afines del Perú (Fetbanf), formada por seis sindicatos de bancários de diferentes bancos peruanos. Houve posse da primeira diretoria e a filiação à UNI Global Union.

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