A partir do próximo dia 30, a memória
de luta dos bancários poderá ser acessada e conhecida por qualquer
pessoa. Estará disponível, em um site, fotografias, depoimentos,
jornais antigos, matérias, vídeos, estudos e todos os documentos
que fazem a história da categoria.
O Projeto Memória é um desejo antigo
da diretoria e fecha com chave de ouro a atual gestão. “Temos uma
história riquíssima, que precisa ser conhecida, até porque
conhecer nossa história ajuda a projetar o futuro. As gestões
passam. O Sindicato fica”, afirma a presidenta do Sindicato,
Jaqueline Mello. O lançamento acontece na sede do Sindicato, a
partir das 20 horas, seguido de coquetel.
O COMEÇO – O bancário da
Caixa, Geraldo Lélis, faz parte da diretoria recém eleita e está
ajudando a tocar o projeto. Seu trabalho de conclusão de curso foi
sobre o processo de fundação do Sindicato dos Bancários e,
atualmente, ele está desenvolvendo pesquisa sobre o sindicato na era
Vargas.
Uma de suas principais fontes é a
publicação Correio Bancário, que circulou durante mais de vinte
anos. “O Sindicato foi oficialmente reconhecido em 1932. Mas, antes
disso, houve uma intensa movimentação, com reuniões constantes e a
briga para romper a burocracia que emperrava o surgimento de
associações sindicais”, conta o historiador.
A conjuntura era bem diferente.
“Praticamente não havia sindicatos. O pessoal trabalhava de dia e
se reunia à noite. E vale lembrar que a jornada era de oito horas”,
ressalta Geraldo. Segundo ele, o Correio Bancário só passou a
circular mais de um ano e meio depois da fundação da entidade. “Os
associados ainda eram poucos e uma das grandes brigas era para
convencer os trabalhadores a se engajarem no Sindicato. Para
conseguirem manter a publicação, eles corriam atrás de
patrocínio”, lembra o bancário. No fim de três anos, já havia
mais de 300 filiados.
A Era Vargas – Segundo Geraldo,
o Correio Bancário sofreu algumas interrupções em seus mais de
vinte anos de circulação. Uma delas foi no período entre 1934 e
1938. “Tudo nos leva a crer que houve uma intervenção. Quando o
Correio Bancário volta a circular, a estrutura do Sindicato é outra
e a linguagem também. Antes, Getúlio era chamado de ditador.
Quando a publicação retorna, já é considerado presidente”, diz.
Antes desse período, uma das grandes
lutas e conquistas registradas pela publicação foi o decreto das
seis horas, que institucionalizou em 1933 a jornada dos bancários.
Havia, também, uma intensa movimentação dos trabalhadores. “No
período pós-crise de 29, as condições de trabalho eram muito
ruins. Então, este foi também um período importante de organização
do movimento operário. Isso fica visível no Correio Bancário. A
legislação trabalhista de Getúlio Vargas nada mais é do que uma
estratégia do governo para conter esses movimentos”, opina o
historiador.
Trabalhadores unidos – Com a
morte de Getúlio e a posse de Juscelino, ampliou-se o clima de
nacionalismo e houve uma maior liberdade de organização para os
trabalhadores. Rui Carlos de Alencar (foto), aposentado do Banco do Brasil,
entrou na direção do Sindicato dos Bancários nesta época, durante
a gestão de Gilberto Azevedo. “Havia um sindicato muito
burocrático: mais assistencialista e prestador de serviços do que
combativo. Era um pessoal ligado à Igreja, que tinha aquela visão
de harmonia entre as classes”, lembra Rui.
Com a eleição do novo grupo, o
Sindicato mudou o perfil. “Organizamos comissões sindicais nas
agências. Chegamos a realizar assembleias com mais de 2 mil
pessoas”, conta o antigo dirigente.
Além de ter sido secretário-geral da
entidade por duas gestões (a de Gilberto Azevedo e a de Darcy
Leite), Rui Alencar presidiu a antiga Federação dos Bancários do
Norte e Nordeste.
Além da federação, havia também uma
Confederação Nacional, presidida por Aluísio Palhano, do Rio de
Janeiro. “O Sindicato do Rio de Janeiro era uma grande referência.
E Gilberto, que tinha passado um tempo por lá, trouxe isso consigo.
Aluísio Palhano foi uma grande liderança. Acabou morto pela
ditadura militar”, lamenta Rui.
Mas Pernambuco não ficava muito atrás
no que se refere à organização. Tanto que foi pioneiro na extinção
do trabalho aos sábados.
Rui lembra ainda que, naquela época,
era proibida a existência de centrais sindicais. Então, à revelia
da lei, eles criavam instâncias para unificar a luta. Em Pernambuco,
o Conselho Sindical dos Trabalhadores funcionava na sede do Sindicato
dos Bancários que, na época, era na Conde da Boa Vista. Ali se
reuniam dirigentes sindicais bancários, portuários, rodoviários,
metroviários, entre outras categorias mais combativas.
Foi assim, unidos, que os trabalhadores
garantiram várias conquistas, como a aposentadoria e o 13º salário.
“No final da década de 50 e começo de 60, havia um clima de
mobilização muito grande. Um evento marcante foi, por exemplo, o
Congresso Nacional dos Trabalhadores, no Rio de Janeiro, em 1960, que
reuniu sindicatos do país inteiro. Em 1961, tivemos uma greve
nacional, com participação expressiva dos bancários de
Pernambuco”, lembra Rui Alencar.
Outra conquista importante para a
categoria foi a possibilidade de indicar os dirigentes do IAPB
(Instituto de Aposentadoria dos Bancários). “Não havia INSS, mas
vários institutos de aposentados, por categoria. No caso dos
bancários, tanto o presidente nacional da entidade quanto os
delegados estaduais eram indicados pelos sindicatos e confederação”,
explica o ex-dirigente. Ele, por exemplo, chegou a ser escolhido como
delegado do IAPB. Nunca tomou posse.
Organização interrompida –
Era dia 31 de março de 1964. Rui estava no Rio de Janeiro para tomar
posse como delegado do IAPB. Foi comunicado que deveria esperar mais
um pouco. Na verdade, tratava-se da movimentação militar que
antecedeu o golpe.
No dia 1º de abril, Rui e um colega
foram até o centro do Rio de Janeiro, onde os estudantes se reuniam
em comício. “Cruzamos por acaso com a condessa, que era presidenta
do Jornal do Brasil, e ela estava sorrindo. Meu colega comentou: – A
condessa está sorrindo. Isso é um mau sinal. Passamos a acompanhar
as notícias pelo rádio e, pouco depois, era tiro pra todo lado…”,
lembra o ex-bancário.
Rui não conseguiu voltar para o hotel
onde estava hospedado. Também não conseguiu voltar pra casa, que os
aeroportos foram fechados. Ficou na Casa do Estudante e só conseguiu
retornar pra Pernambuco três dias depois. “Soube que Arraes tinha
sido deposto, que ele e Gilberto Azevedo tinham sido presos e levados
pra Fernando de Noronha… Eu estava com todos os documentos da
Confederação. Fiquei com medo de levá-los comigo. Meu amigo era do
Rio Grande do Norte e, como as coisas lá pareciam mais calmas, pedi
pra ele levar. Ele acabou sendo preso e os papéis confiscados”,
conta Rui.
Dos tempos que antecedem o golpe, ele
lembra de algumas coisas: uma forte organização dos trabalhadores,
as acusações da mídia e a influência religiosa. “Surgiram
algumas organizações que a gente tem certeza que eram máquinas de
espionagem internacional para preparar o golpe. Tanto é que fecharam
pouco tempo depois. Lembro de um padre canadense que veio fazer um
ato aqui no Recife. Muitos anos depois, fiquei sabendo que este mesmo
padre também fez atividade no Chile pouco antes do golpe de
Pinochet”, diz.
Rui foi preso várias vezes, embora não
tenha chegado a ser torturado: “Os militares chegavam na agência
com uma lista de nomes. Aos gerentes, só cabia entregar os colegas,
para serem levados à prisão”. Ele perdeu o emprego no banco e
abriu um escritório para prestar serviços como contador. O
escritório era, aliás, ponto de encontro de colegas que combatiam o
regime.
Somente depois da anistia, ele teve o
emprego restituído. Ainda chegou a participar das lutas para retomar
a direção do Sindicato, que estava nas mãos dos herdeiros da
intervenção militar. Uma luta da qual também fizeram parte vários
dos integrantes que compõem a atual diretoria e a que assume a
partir de julho, em mais um capítulo da história.