Durante 50 dias, entre junho e julho de 1990, os trabalhadores na montadora Ford, em São Bernardo do Campo (SP), protagonizaram umas das mais simbólicas greves da história dos metalúrgicos do ABC, na qual a intransigência da empresa norte-americana levou à radicalização do processo e à solidariedade da categoria.
Mesmo os metalúrgicos tendo ousado desafiar a ditadura militar, no final da década de 1970, nunca a luta de classe esteve tão explícita quanto na Greve dos Golas Vermelhas, como o movimento foi batizado, em referência aos uniformes dos trabalhadores do setor de Manutenção e Ferramentaria.
“Havia um ambiente político difícil porque Lula tinha sido derrotado em 1989 e Collor tinha sido eleito com a imprensa comercial exercendo uma forte influência sobre o eleitorado”, relembrou o presidente do Sindicato e gola vermelha, Rafael Marques.
“A nossa greve foi tratada do mesmo jeito, como se fossemos bandidos, como se não houvesse gente séria trabalhando na Autolatina [fusão entre Volks e Ford de 1987 a 1996], como se não existissem dirigentes sérios no Sindicato”, criticou.
E prosseguiu: “Os trabalhadores sentiram naquela época o mesmo que o Lula sentiu nas eleições, de como a imprensa comercial trata, inverte, engana, cria um cenário hostil para um lado e defende outro. Isso não mudou no Brasil”.
Para Rafael, as relações de trabalho melhoraram muito desde então, com os patrões, o governo e a sociedade. “Quem até hoje não mudou seu comportamento foi a mídia. Parece que sempre terá um metalúrgico do ABC como alvo”, lamentou.
A greve de todos os 900 operários do setor de Manutenção e Ferramentaria inaugurou a estratégia adotada pelo Sindicato dos Metalúrgicos do ABC para a campanha salarial daquele ano, com paralisações em pontos vitais das empresas.
A campanha do Sindicato calculava uma inflação de 166,9% e considerava os 11,42%, oferecidos pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, a Fiesp, como esmola aos trabalhadores. Em 29 de junho, em assembleia, a categoria aprovou por maioria o acordo fechado entre os Metalúrgicos do ABC e a Fiesp, com reajuste de 59,11%.
Mas na Ford ainda havia uma questão pendente: a demissão de 100 golas vermelhas, entre eles o atual presidente do Sindicato, Rafael Marques, e o afastamento dos diretores sindicais João Ferreira Passos, o Bagaço; e José Arcanjo de Araújo, o Zé Preto; que também integravam a Comissão de Fábrica à época.
A decisão da Ford de demitir os trabalhadores, uma semana antes do encerramento da campanha salarial, gerou revolta nos companheiros do chão de fábrica e fez com que o pessoal do setor de manutenção e ferramentaria entregassem suas carteiras funcionais em sinal de protesto.
Os trabalhadores, que não estavam em greve, mas apoiavam o movimento, decidiram doar 10 horas de trabalho para pagar o salário daqueles que estavam na linha de frente do processo.
Durante 50 dias, entre junho e julho de 1990, os trabalhadores na montadora Ford, em São Bernardo do Campo (SP), protagonizaram umas das mais simbólicas greves da história dos metalúrgicos do ABC, na qual a intransigência da empresa norte-americana levou à radicalização do processo e à solidariedade da categoria.
Mesmo os metalúrgicos tendo ousado desafiar a ditadura militar, no final da década de 1970, nunca a luta de classe esteve tão explícita quanto na Greve dos Golas Vermelhas, como o movimento foi batizado, em referência aos uniformes dos trabalhadores do setor de Manutenção e Ferramentaria.
“Havia um ambiente político difícil porque Lula tinha sido derrotado em 1989 e Collor tinha sido eleito com a imprensa comercial exercendo uma forte influência sobre o eleitorado”, relembrou o presidente do Sindicato e gola vermelha, Rafael Marques.
“A nossa greve foi tratada do mesmo jeito, como se fossemos bandidos, como se não houvesse gente séria trabalhando na Autolatina [fusão entre Volks e Ford de 1987 a 1996], como se não existissem dirigentes sérios no Sindicato”, criticou.
E prosseguiu: “Os trabalhadores sentiram naquela época o mesmo que o Lula sentiu nas eleições, de como a imprensa comercial trata, inverte, engana, cria um cenário hostil para um lado e defende outro. Isso não mudou no Brasil”.
Para Rafael, as relações de trabalho melhoraram muito desde então, com os patrões, o governo e a sociedade. “Quem até hoje não mudou seu comportamento foi a mídia. Parece que sempre terá um metalúrgico do ABC como alvo”, lamentou.
A greve de todos os 900 operários do setor de Manutenção e Ferramentaria inaugurou a estratégia adotada pelo Sindicato dos Metalúrgicos do ABC para a campanha salarial daquele ano, com paralisações em pontos vitais das empresas.
A campanha do Sindicato calculava uma inflação de 166,9% e considerava os 11,42%, oferecidos pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, a Fiesp, como esmola aos trabalhadores. Em 29 de junho, em assembleia, a categoria aprovou por maioria o acordo fechado entre os Metalúrgicos do ABC e a Fiesp, com reajuste de 59,11%.
Mas na Ford ainda havia uma questão pendente: a demissão de 100 golas vermelhas, entre eles o atual presidente do Sindicato, Rafael Marques, e o afastamento dos diretores sindicais João Ferreira Passos, o Bagaço; e José Arcanjo de Araújo, o Zé Preto; que também integravam a Comissão de Fábrica à época.
A decisão da Ford de demitir os trabalhadores, uma semana antes do encerramento da campanha salarial, gerou revolta nos companheiros do chão de fábrica e fez com que o pessoal do setor de manutenção e ferramentaria entregassem suas carteiras funcionais em sinal de protesto.
Os trabalhadores, que não estavam em greve, mas apoiavam o movimento, decidiram doar 10 horas de trabalho para pagar o salário daqueles que estavam na linha de frente do processo.
A Greve dos Golas Vermelhas caracterizou-se por essa consciência do coletivo. A visão estratégica transformado-se em posição ideológica e de enfrentamento de classes, com decisões claras sobre a luta que pretendiam travar.
Para cada ação de endurecimento da fábrica, uma ação de resistência era disseminada pelos trabalhadores. Em 20 de julho daquele ano, a Ford suspendeu o pagamento do adiantamento salarial de todos os 7.400 trabalhadores, sem distinção.
A reação dos metalúrgicos foi imediata: incendiaram carros dos diretores da empresa e depredaram algumas dependências da fábrica. Os dirigentes sindicais foram chamados. A polícia também. O objetivo de desarticular o chão de fábrica teve efeito contrário: aumentou a solidariedade e ampliou o seu alcance de mobilização para além dos muros da empresa.
A tensão aumentava. No dia 26 de julho, pela manhã, os trabalhadores encontraram a fábrica cercada pela tropa de choque da Polícia Militar. A interferência e firmeza das lideranças sindicais e locais evitaram o confronto. A ação foi reconhecida e o diálogo entre o Sindicato e a Ford foi retomado. “A Greve apresentou uma solução aos trabalhadores e ao país, que o que vale em uma relação é o diálogo, é o respeito mútuo”, completou o presidente.
As negociações levaram à readmissão de 80 trabalhadores e à reintegração dos membros da Comissão de Fábrica e da CIPA (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes), entre outras garantias. Os demais 20 operários sairiam por um programa de demissão voluntária.
O preço pago pelo movimento foi o afastamento da fábrica dos diretores Bagaço e Zé Preto, porém com a garantia de manutenção de seus pagamentos. Em 30 de julho de 1990, os trabalhadores na Ford aprovaram o acordo e encerram a Greve dos Golas Vermelhas.
Início da militância – O secretário geral da Confederação Nacional dos Metalúrgicos da CUT (CNM/CUT), João Cayres, um dos “golas vermelhas” na época, recorda que aquele movimento representou o início de sua militância nas lutas dos trabalhadores.
“Foi nessa greve que percebi a forte solidariedade de classe, o respeito entre os metalúrgicos. Durante a greve, passei a frequentar a sala da Comissão de Fábrica [foto abaixo], o Sindicato e a me envolver, pra valer, com o movimento sindical”, lembra Cayres.
O sindicalista destaca ainda que a greve rompeu os paradigmas na relação capital-trabalho e a instransigência patronal. “Havia orientação do governo Collor para que não houvesse reposição da inflação nos salários e a Ford tinha a postura de não negociar com o Sindicato. A partir daquela greve, as relações mudaram e as negociações passaram a ser valorizadas”, assinala João Cayres.
Para relembrar esse histórico movimento, circulou nesta terça-feira, dia 21, nas fábricas do ABC uma edição especial da Tribuna Metalúrgica, jornal do Sindicato, que traz mais detalhes sobre a greve:
• 50 dias que marcaram a história da categoria