
Nós, artistas de teatro de Pernambuco, tornamos pública nossa preocupação com o atual momento político brasileiro, ao tempo que expressamos nossa disposição em promover ações com vistas à garantia da democracia, pressuposto da liberdade de expressão que é nosso chão de trabalho.
Constatamos no cenário mundial o aprofundamento de conflitos sociais, políticos e econômicos e o Brasil não é exceção à regra. Entendemos, porém, que justamente nos momentos de maior turbulência devemos nos apoiar nas conquistas cívicas, para assegurar o Estado democrático de direito.
Nossa sociedade lutou durante muitos anos por um regime democrático e se ver livre de práticas autoritárias. Hoje assistimos a uma tentativa de destituição de um governo eleito pela maioria do povo brasileiro, articulada por aqueles que não se conformam com a derrota nas urnas e que com o apoio da grande mídia, buscam inviabilizar o país e ferir frontalmente a nossa democracia. Manipulam a opinião pública e tentam legitimar um discurso totalitário e de exceção, principalmente por meio de uma rede de comunicação, cuja história se confunde com o próprio golpe militar de 1964.
A quem interessa o processo de reformulação da pirâmide social pelo qual tem passado o país? Seguramente não àqueles que defendem o impeachment da presidenta da república. Não se tira um governo apenas por discordar-se dele. Esta é uma prerrogativa do povo brasileiro e não de 400 deputados. Cabe ao povo, através de um processo eleitoral transparente, julgar, no tempo certo, por meio do voto, as ações de seus governantes. Este é o maior princípio da nossa democracia que agora está sendo arranhado. A pressa em acelerar o processo de convulsão social se explica pelo fato de que a farsa dantesca que ora se apresenta, não resistiria a mais alguns meses de exposição.
Querem nos convencer que uma operação policial que há dois anos investiga apenas um partido político é a salvação da república. Não é. Defendemos que, se há políticos envolvidos em esquemas de corrupção, que sejam devidamente investigados, julgados indistintamente e, se condenados, cumpram suas penas. Mas o que vemos são investigações seletivas e julgamentos midiáticos num processo que atenta contra a lei e corre à revelia da vontade popular.
Se por um lado parte da população se manifesta a favor da derrubada do governo, reproduzindo um texto escrito pela oposição e ditado por um telejornal, por outro, há uma parcela ainda maior contrária à tentativa de golpe. Mas, lamentavelmente, a cobertura da grande mídia distorce as informações e os milhares de cidadãos e cidadãs, os incontáveis grupos sociais representados na multidão que foram e vão às ruas expressar seu apoio à democracia, não passam de simples simpatizantes do governo.
E para adensar a trama, dissemina-se o ódio e a intolerância às diferenças de pensamento, de gênero, de etnia, de condição social, principalmente. Rotulam-se os posicionamentos como sendo superior e inferior, lançando mão de estratégias nazistas, dividindo a nação, como se não fôssemos todos brasileiros.
A função da imprensa no processo democrático é de fundamental importância, não podemos esquecer. Mas soa-nos estranho que num momento tão expressivo como este, o debate sobre reforma política não seja levantado, para que se evite o banditismo generalizado em nossa política. A corrupção no nosso país é endêmica, inerente ao sistema, o qual precisa ser mudado. Não é trocando um presidente que solucionaremos o problema da corrupção. A solução passa necessariamente por projetos que viabilizem reformas política, eleitoral e na comunicação. Mas, este assunto não entra na pauta do congresso, nem na da imprensa.
Estamos prestes a passar uma vergonha mundial com a instauração de um processo de impeachment contra uma presidente que não cometeu qualquer ato ilícito que a incrimine, mas em contrapartida, terá no comando um réu sobre o qual recaem denúncias e provas de evasão de divisas, lavagem de direito, bem como desmandos na presidência da câmara para favorecimento pessoal, entre outros crimes. Um acinte ao povo brasileiro! Um abismo na nossa história.
Por estas razões firmamos nosso compromisso com a democracia e dizemos não a qualquer forma de violação às regras vigentes. O golpe de 1964 já causou à nossa sociedade um atraso de quase 50 anos. Nós optamos pela liberdade. Nós optamos por um país livre de salvadores da pátria. Nós dizemos não aos corruptos e aos fundamentalistas que invadem a política brasileira.
O teatro sempre foi e sempre será nossa trincheira. A rua se faz palco e é daqui que mandamos o nosso recado. Jamais silenciaremos diante das injustiças e das tentativas de nos tirarem o que de mais precioso conquistamos – a nossa capacidade de pensar criticamente e de agir com liberdade. É por isso que dizemos NÃO AO GOLPE, NÃO AO ESTADO DE EXCEÇÃO E VIVA A DEMOCRACIA!