![]()
Queda no lucro e diminuição do papel da instituição como fomentadora do desenvolvimento nacional,com consequente frustração dos empregados na PLR, são evidenciados pelos resultados de 2016
*Por Rita Serrano
Em
2016 a Caixa obteve lucro líquido de R$ 4,1 bilhões. Apesar de
elevado, o montante representa queda expressiva (41,8%) se comparado
ao ano anterior. Efeito semelhante, em menor proporção, foi
observado entre os maiores bancos do País. No caso da Caixa houve
forte impacto dos créditos tributários que, em 2015, acrescentaram
ao resultado do banco R$ 2,38 bilhões e, em 2016, reduziram-no em R$
298 milhões.
Com
isso, o impacto na distribuição da Participação nos Lucros e
Resultados (PLR) é grande, assim como era grande a expectativa
gerada nos empregados a partir do pagamento da primeira parcela em
2016. Afinal, essa primeira parcela foi feita a partir de uma
projeção de resultado bem acima do aferido de R$ 4,1 bilhões e,
com a antecipação de 60%, agora a segunda parcela deverá ser
modesta.
Como
representante dos empregados abordei essa discrepância na recente
reunião do Conselho de Administração (CA) em que o balanço 2016
foi avaliado. É preciso evidenciar que, embora não se possa alterar
o resultado, o fato representa uma contradição inédita na história
da Caixa, que sempre adotou postura conservadora com relação ao
orçamento.
Porém,
para além do lucro e da PLR, devemos analisar esse balanço dentro
do contexto de recessão econômica e de instabilidade política no
Brasil. A mudança de governo trouxe consigo a piora na recessão e o
retorno do modelo de Estado mínimo, combatido na década de 1990, um
Estado subserviente ao capital financeiro e às multinacionais no
qual empresas públicas são sucateadas e empregos precarizados.
A
Caixa é uma das poucas empresas 100% públicas, a maior operadora
dos programas sociais do governo, a maior investidora em habitação
e infraestrutura, gerenciadora única do FGTS, das loterias e de
outros serviços fundamentais para o País. Mas os números desse
balanço já comprovam a alteração de rumo e os riscos para a
manutenção desse papel. O processo que teve início em 2015 e agora
se acentua traz queda nos investimentos em habitação e
infraestrutura. Em 2014, a carteira de habitação registrava
crescimento de 25,7% do saldo em relação ao ano anterior. Em 2015,
esse crescimento caiu a 13,2% e, em 2016, teve evolução mínima,
residual, de apenas 5,6% na comparação com o ano anterior.
Já
o FGTS representa aproximadamente um quarto do ativo total
administrado pela Caixa, e os bancos privados se movimentam para
privatizar esses recursos, tal como os do Fundo de Amparo ao
Trabalhador (FAT), usados pela Caixa e BNDES para programas sociais e
créditos direcionados. Para agravar esse cenário, a direção da
Caixa vem anunciando a privatização das operações de loterias,
cartões e seguros.
A
queda no resultado e a necessidade de capitalização poderão ser
artifícios para acelerar o desmonte do banco e, em consequência, o
aumento na pressão por resultados, o ataque a direitos (como já
ocorre com o Saúde Caixa) e o fechamento de unidades. Não se pode
descartar que o anúncio de demissão sumária feito pelos Correios
chegue também às demais empresas públicas, já que se trata de uma
política de governo.
Diminuir
o papel da Caixa e das demais empresas públicas tem como reflexo
imediato a ampliação do desemprego, a agudização da crise
econômica, a estagnação do Brasil e o crescimento da miséria,
cenário que já se evidencia nas medidas e reformas anunciadas pelo
governo. Assim, caberá novamente aos empregados a vanguarda na
defesa da Caixa pública, sustentável e voltada para o
desenvolvimento do País, tendo claro que, para isso, é preciso ter
como condição sine qua non a volta da democracia.
O
momento exige união. Vencemos outras batalhas e vamos vencer essa
também, mas precisamos ter em mente que há obstáculos para a
negociação plena e que é fundamental o diálogo com a sociedade e
a organização para a luta. Uma luta que é de todos os brasileiros,
mas que tem nos empregados da Caixa sua principal fonte de
resistência, pois defender a Caixa é defender o Brasil.
*Rita
Serrano é atualmente suplente representante dos empregados no CA da
Caixa; conselheira eleita para a próxima gestão, coordenadora do
Comitê Nacional em Defesa das Empresas Públicas, diretora da
Contraf-CUT e Sindicato dos Bancários do ABC e mestra em
Administração”