Por ano, cerca de 1,3 milhão de mortes no mundo são causadas pela
poluição urbana, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Só
em São Paulo morrem 4 mil por ano. Em 2004, quando o número de carros
era um terço menor, estima-se que o número de mortes tenha sido 2,9 mil.
Idosos, crianças, gestantes, portadores de doenças respiratórias e
cardíacas crônicas e, principalmente, os mais pobres – que têm níveis
maiores de exposição – são os principais atingidos.
Segundo Paulo
Saldiva, médico especialista em poluição atmosférica e professor da
Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), “não há
impedimentos técnicos ou falta de conhecimento para que esse problema
seja resolvido. No meu entendimento, temos todas as condições de
resolver o problema da poluição do ar em nossas cidades em alguns anos”.
De
acordo com a OMS, os elevados níveis de poluição na cidade de São Paulo
são responsáveis pela redução da expectativa de vida em cerca de um ano
e meio. Os três motivos que encabeçam a lista são: câncer de pulmão e
vias aéreas superiores; infarto agudo do miocárdio e arritmias; e
bronquite crônica e asma. Estima-se que a cada 10 microgramas de
poluição retiradas do ar há um aumento de oito meses na expectativa de
vida.
Em entrevista à Carta Maior, o patologista apontou
para as duas causas fundamentais do problema: o caráter segregador da
ocupação do solo nas metrópoles e a falta de políticas públicas que
privilegiem o transporte público. Segundo Saldiva, quem mais polui são
os carros, e, nas grandes cidades do Brasil, a opção pelo transporte
veicular sequer traz o benefício de uma mobilidade eficiente. “A
existência de um transporte coletivo rápido, eficiente e barato daria a
motivação para que a população migrasse para o transporte público”,
afirma.
Carta Maior – Segundo dados da Cetesb
(Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental, ligada ao governo do
estado de São Paulo) e do Laboratório de Poluição Atmosférica da
Faculdade de Medicina da USP, os índices de poluição em São Paulo são os
piores dos últimos oito anos e as doenças cardiorrespiratórias matam 20
pessoas por dia na região metropolitana. Há relação entre esses dois
fatores?
Paulo Saldiva – O aumento dos casos de doenças
cardíacas e respiratórias em nossas cidades tem várias causas:
envelhecimento da população, sedentarismo, obesidade e também a poluição
atmosférica. Nas cidades onde há grandes séries históricas de medições
de poluição, como São Paulo e Rio de Janeiro, houve uma melhora contínua
até cerca de 2005 e 2006. A partir desse momento, a tendência de
melhora se interrompe, com evidências de piora, notadamente para
partículas finas e ozônio. O mais grave é que o patamar onde estamos é
reconhecidamente causador de dano à saúde.
CM – Por que a poluição piorou a partir de 2006? Foi por causa do aumento da frota de veículos?
PS –
A poluição deixou de melhorar a partir de 2006, estacionando em níveis
inadequados para a saúde humana. Os poluentes que ficaram acima do
padrão são o ozônio e o material particulado. A razão para isso é o
aumento da frota e a lentificação do trânsito, que faz que os veículos
emitam mais poluentes ao estarem presos em congestionamentos. A redução
da velocidade do tráfego faz que permaneçamos cada vez mais tempo em
meio a corredores de tráfego, onde os níveis de poluição são
substancialmente mais elevados do que a média da cidade. Em outras
palavras, quanto mais tempo ficamos presos em congestionamentos
intermináveis, maior será a nossa dose de poluição. O tamanho do
problema pode ser resumido da seguinte forma. Aproximadamente 12% das
internações respiratórias em São Paulo são atribuíveis à poluição do ar.
Um em cada dez infartos do miocárdio são o produto da associação entre
tráfego e poluição. Os níveis atuais de poluição do ar respondem por 4
mil mortes prematuras ao ano na cidade de São Paulo. Trata-se, portanto,
de um tema de saúde pública.
CM – Quem são os principais atingidos pelo aumento da poluição?
PS
– Idosos, crianças, gestantes, portadores de doenças respiratórias e
cardíacas crônicas e, principalmente, os mais pobres, que têm níveis
maiores de exposição.
CM – Por que os mais pobres têm níveis maiores de exposição?
PS –
O fato de tratarmos o solo das cidades como mercadoria faz que as áreas
centrais da cidade percam população, notadamente a mais pobre, que
migra para áreas mais acessíveis na periferia, aumentando,
consequentemente, o tempo de permanência no tráfego. As casas das
comunidades mais carentes são também as mais permeáveis à entrada de
poluentes. Finalmente, é nos pontos de ônibus, pontos de alta
concentração de poluentes, que a população mais desfavorecida passa
longos períodos à espera do transporte.
CM – Quais são as alternativas de políticas públicas que você sugere para diminuir a poluição?
PS –
No meu entendimento, temos todas as condições de resolver o problema da
poluição do ar em nossas cidades em alguns anos. Nas grandes cidades do
Brasil, a poluição veicular é responsável pela grande maioria das
emissões de poluentes. Mudamos o microclima urbano e poluímos o ar sem
termos nem ao menos o benefício de uma mobilidade mais eficiente. A
existência de um transporte coletivo rápido, eficiente e barato daria a
motivação para que a população migrasse para o transporte público.
Sabemos fazer metrô, construímos trens e nossos engenheiros produzem os
grandes corredores de ônibus em Santiago, Bogotá e Pequim. Temos a
disponibilidade de vários combustíveis mais limpos do que os que
utilizamos. Não há, portanto, impedimentos técnicos nem falta de
conhecimento para que resolvamos o problema. Faltam políticas públicas
de médio prazo para privilegiar o transporte coletivo.
CM – Além das medidas de mobilidade, existem outras que poderiam ser tomadas em outras áreas?
PS –
Aumento da cobertura vegetal – que funciona como fator de redução de
poluição –, medidas de readensamento urbano nas regiões centrais das
cidades e políticas de incentivo aos combustíveis menos poluentes.
CM – Se não há impedimento técnico ou de conhecimento, o impedimento é político? O que causa esse impedimento político?
PS –
Dificilmente haverá um político no Brasil, nas presentes
circunstâncias, que ouse implementar políticas de favorecimento do uso
das vias pelo transporte coletivo ou ciclovias em detrimento dos
automóveis. Também creio ser muito pouco provável que encontremos
condições para combater a política atual de uso e ocupação do solo
urbano, dado o estado de descrédito em que as principais forças
políticas de nosso país se encontram. Por exemplo, a maior parte da
população irá preferir pagar um pedágio urbano “indireto” – pagar
estacionamentos particulares nos locais de trabalho ou perder horas de
sono por causa dos congestionamentos – a pagar uma taxa para a melhoria
do transporte coletivo. É uma situação que mistura uma crise de gestão
política, interesses econômicos e falta de lideranças confiáveis.
CM – Como o modo de vida nas grandes cidades pode afetar a saúde, além da poluição?
PS –
O fator mais significativo é o estresse social. O conjunto de falta de
mobilidade, ruído excessivo, sedentarismo veicular e violência faz que a
incidência de doenças mentais e afetivas seja muito mais frequente nas
cidades. Outro exemplo é a obesidade, produto do modo de vida que
resulta da maneira como organizamos a cidade. Por exemplo, uma criança
hoje não tem acesso ao espaço público por razões de violência. Nesse
cenário, o jogo de futebol é no console eletrônico do Fifa 2012 e não na
rua.