Por Sulany Lacet *
Desde o início do mês
tenho me deparado com as costumeiras e anuais reverências em
homenagem ao dia da mulher aqui no Banco do Brasil. Mensagens que nos
convidam a “fazer a diferença”. Um banner atrativo e
delicado: tudo para dizer que hoje somos especiais. Afinal, há um
dia instituído internacionalmente para isto. Mas antes de me deixar
encantar por esse pseudo reconhecimento de minha condição, parei
para pensar no que significa “fazer a diferença” aqui no Banco
do Brasil.
Lembrei do incerto começo disso tudo, das
operárias russas, nova-iorquinas, até da Maria da Penha.
Precisamente o que sei é que tudo que ensejou esses registros foi a
luta, a não submissão, mas, sobretudo, a consciência de que sim,
somos igualmente capazes, igualmente humanas. Por isso é que o Dia
Internacional da Mulher deve ser marcado, não por esse oportunismo
mercantil, e sim como a reiteração dessas lutas.
Passados
alguns séculos, a realidade nossa de cada dia nos mostra quanta
desigualdade e discriminação ainda resta. É preciso, portanto,
parar de se utilizar desta data, dramaticamente registrada, enchendo
nossos olhos de um colorido e de uma sensibilização atraentes, e
conceder-nos o efetivo respeito que merecemos diuturnamente.
Bem,
aproveitando então o convite a fazer a diferença, venho
compartilhar minha experiência como mulher no Banco do Brasil.
Em
2011, grávida de 5 meses, participei de um processo seletivo no CSO
Recife, no qual fiquei dentre os selecionados. Ainda na validade do
processo, minha vaga surgiu. Contudo, em virtude de estar em
licença-maternidade, não fui nomeada. Mas ficou a palavra do CSO de
que sim, eu teria direito a vaga, tão logo esta surgisse. A licença
acabou e vivi longos seis meses em função dessa espera. Projetos
adiados e vida parada nessa expectativa, para finalmente o CSO
informar que não, eu não seria nomeada.
Contrariando o
próprio normativo e a legislação trabalhista, o banco alegou o que
podia e o que não podia. Se a Gepes dizia que o contrato de trabalho
estava suspenso, a Dipes do outro lado dizia que não, e assim foi
que, entre suas contradições, o banco silenciou e até hoje aguardo
o retorno prometido pela Gepes.
Não. Na verdade, não aguardo
mais. Mas, embora tenha conhecido de perto a indiferença do Banco do
Brasil, não desisti. O tempo passou, frustração e decepção
ficaram, mas decidi não ceder ao desrespeito e não calar diante da
ilegalidade. Senti na pele que o fato de ser mulher e exercer nosso
mais importante dom, a maternidade, me trouxe um ônus profissional.
Quantas vezes ouvi de colegas que ninguém iria me nomear, pois
estava de licença e não seria interessante para o banco uma pessoa
que se manteria ausente por um período. É óbvio! Diziam…
Talvez
essa realidade seja óbvia para quem ainda acredita que mulher é um
ser menor, que atingir metas e aumentar famigeradamente a
produção tem uma importância maior de que gerar uma vida.
Felizmente ou infelizmente toda essa obviedade de nossa
realidade profissional não me convence. A legislação que rege o
mercado de trabalho da mulher vem do sangue daquelas que não
aceitaram a desigualdade. E isso não pode ser desperdiçado.
Por
isso resisto. Porque eu amo ser mulher. Eu amo ser mãe.
E não
quero mais conjecturar se isso tudo teria acontecido comigo se eu
fosse homem…
Feliz todos os dias, mulheres!
* Sulany Lacet Cavalcanti de Lima é bancária e mãe