Um estudo do Fundo
Monetário Internacional (FMI), publicado em 1º junho, afirma que o
aumento da desigualdade social tem impacto negativo sobre a economia
mundial. O documento, intitulado Causas e consequências da
desigualdade de renda em uma perspectiva global, foi escrito por
cinco economistas do Departamento de Política Estratégica e Revisão
do FMI, e sugere a adoção de políticas de distribuição de renda,
como programas assistenciais e impostos sobre grandes fortunas, como
forma de garantir um crescimento sustentável.
“A
desigualdade é uma das questões que define nosso tempo e é algo
que muitos parlamentares ao redor do mundo se preocupam”,
explica Kalpana Kochhar, uma das economistas envolvidas no
estudo. “[A desigualdade] pode concentrar poder político e
econômico nas mãos de poucos ricos e ter implicações
significantes para o desenvolvimento e para a macroestabilidade
econômica”, completa.
A análise do FMI chega em um
momento propício. De acordo com as previsões da ONG britânica
Oxfam, espera-se que, em 2016, as 37 milhões de pessoas que
compõem o 1% mais rico da população mundial terão
mais dinheiro do que os outros 99% juntos. A preocupação em torno
do crescimento da desigualdade é tão disseminada que até o Papa
Francisco já chamou atenção para o fenômeno, denominado por
ele de “exclusão econômica”.
Diante disso, as
conclusões do estudo seguem uma lógica simples, mas que vai contra
o que o próprio Fundo Monetário e países desenvolvidos defendem.
Segundo o documento, em vez de concentrar esforços em medidas de
austeridade, cujos efeitos prejudicam os setores mais
vulneráveis da sociedade, o caminho para o mundo voltar a crescer
estaria nas mãos dos pobres e da classe média.
“Os
pobres e a classe média tendem a consumir mais do que a sua renda.
Em contraste, os muitos ricos tendem a guardar boa parte de sua
renda, ou seja, não contribuem para o crescimento”,
afirma Kochhar. Com isso, a privação da capacidade de famílias
de classe média e de baixa renda de consumirem afeta o
consumo, o que resulta em um baixo crescimento econômico.
Além
disso, o estudo desmistifica o chamado trickledown, conceito
neoliberal popularizado nos Estados Unidos e no Reino Unido pelos
governos de Ronald Reagan e Margaret Thatcher. O trickledown consiste
na ideia de que se a camada mais rica da sociedade enriquecer, esse
crescimento será distribuído, de forma gradativa, para todos os
setores da sociedade. “Se a fatia de riqueza dos 20% mais ricos
crescer 1%, o PIB global é, na verdade, mais baixo. Ou seja, os
benefícios não são distribuídos em uma reação em cadeia das
camadas mais ricas para as mais pobres. Na verdade, eles afetam o
crescimento global”, afirma Era Dabla-Norris, outra das autoras
do estudo.
“Por outro lado, um crescimento similar na
parcela de renda dos 20% mais pobres está associado a cerca de 0.4%
de crescimento nos próximos quatro anos. Isso significa que uma
parcela maior de riqueza nas camadas pobres e na baixa classe média
tem efeitos positivos no sentido econômico”, completa.
O
estudo também sugere que um período prolongado de altas
desigualdades em economias desenvolvidas estaria associado a crises
econômicas globais, uma vez que lobistas pressionavam por diminuir a
influência dos estados na regulação da economia. Além disso, a
desigualdade econômica também aumenta os conflitos sociais e
contribui para ondas de protestos nos países.
Segundo as
pesquisadoras, os países da América Latina, entre eles o Brasil,
podem apontar um caminho para fora da crise. “Em geral, a
desigualdade tem crescido em todo o mundo, exceto em alguns países
latino-americanos. Há algumas razões para isso: esses países
sofreram uma desigualdade tão alta ao longo do tempo, eles estão
trabalhando melhor em redistribuição de renda, via políticas
sociais e transferência de renda”, diz. “Outra razão é a
queda da diferença de salários entre aqueles que são tidos como
mão-de-obra qualificada e os que não”, afirmam.
O papel
da globalização – As causas do aumento da desigualdade,
segundo o estudo, residem em dois elementos que sempre foram vistos
como benéficos para a sociedade: a globalização e a tecnologia. “O
problema é que a globalização e o avanço tecnológico mudaram a
natureza do trabalho que as pessoas têm. Por isso, estar preparado
para o trabalho, como era há duas décadas, não é o suficiente. E
o que acontece é que o sistema educacional e o acesso a ele não
estão acompanhando o que é exigido em um mundo mais global e
tecnológico”, afirma a economista, Era Dabla-Norris.
Por
conta disso, uma geração inteira de pessoas pode não
encontrar espaço no mercado de trabalho e se ver obrigada a
regressar à escola aos 40 anos. “Existe um padrão geral de que
o avanço tecnológico tornou muitas profissões obsoletas e isso tem
um papel muito importante na desigualdade de salários entre pessoas
qualificadas e não-qualificadas, principalmente em economias
desenvolvidas”, explica Kochhar.
Por isso, a
educação tem um papel chave na redução de desigualdades. “[A
educação é fundamental] para acelerar a produtividade e lidar com
os desafios dos avanços tecnológicos e da globalização. Também é
importante ter legislações trabalhistas e de mercado bem formuladas
que não penalizem os pobres e a classe média porque, no fim,
aumentar a renda dos pobres e da classe média é bom para o
crescimento”, defende Norris.