Ônibus com estudantes indígenas é atacado

Na última sexta-feira (03) um ônibus com
cerca de 30 estudantes indígenas do povo Terena foi atacado por
pedras e coquetéis molotov quando retornava à aldeia na Terra
Indígena Cachoeirinha, em Miranda (MS).

O ataque ocorreu por volta das 23h30 e resultou em
cinco feridos com gravidade, sendo quatro estudantes e o motorista do
ônibus, que seguem internados. O veículo faz o transporte escolar
entre o município de Miranda e as aldeias indígenas da região.

De acordo com Flávio Vicente Machado, coordenador
do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) de Campo Grande, o ônibus
teve os vidros quebrados pelas pedras e os coquetéis molotov
iniciaram incêndio que feriu aos estudantes, que têm entre 15 e 29
anos. “Os alunos  pularam com o ônibus ainda em movimento”,
conta.

O mesmo fez o motorista, Laércio Xavier Correa,
logo após o para-brisas ser quebrado e iniciar o fogo na dianteira
do veículo. Correa sofreu queimaduras na cabeça, braços, tórax e
pernas.

O Cimi informa que, segundo relataram as
lideranças indígenas, a Polícia Civil de Miranda esteve no local e
liberou o ônibus sem realizar perícia. “Somente diante da pressão
das lideranças indígenas foi aberto inquérito”, relata o
coordenador do Cimi. A perícia foi realizada durante o final de
semana e o material colhido será analisado a partir desta
segunda-feira (06).

Luta pela terra – Machado
ainda alega que houve a tentativa por parte da polícia de incriminar
os indígenas, sob alegação de que o ataque foi motivado por briga
interna na aldeia.

No entanto, o líder
indígena Lindomar Terena que todos sabem quem praticou o crime. “O
ataque veio da parte dos fazendeiros por causa da disputa pela terra.
Tudo leva a gente a acreditar nesta hipótese”, conta.

De acordo com o
Lindomar, o crime não foi praticado por ninguém da aldeia. “Os
fazendeiros permitiram que o ônibus entrasse na aldeia para atacar
para poder desviar o foco e dizer que foi índio contra índio”,
explica.

Lindomar Terena relata
que os indígenas estão reunindo provas para apresentar ao
Ministério Público Federal (MPF), que acompanhará as investigações
da Polícia Civil. “Em um caso como este, se não forem tomadas
providências de punir os responsáveis, corremos o risco de
acontecer novamente”, diz o indígena.

Conforme o coordenador
do Cimi, as lideranças Terena são constantemente ameaçadas na
região por conta da luta pela retomada do território tradicional.
“Eles [os fazendeiros] falam que vão matar as pessoas das
comunidades indígenas como se matam formigas”, completa o líder
indígena Lindomar Terena.

A Terra Indígena
Cachoeirinha foi reconhecida pelo Relatório de Identificação
publicado no Diário Oficial da União (DOU), em 2003, e pelo Governo
Federal, através da Portaria Declaratória 791, de 17 de abril de
2007, que firmou seus limites e determinou a demarcação.

Em 2010, o processo de
demarcação foi suspenso por decisão liminar proferida pelo
ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, em favor
de uma ação movida pelo ex-governador do Mato Grosso do Sul, Pedro
Pedrossian, que possui uma fazenda na área. O caso permanece no STF
aguardando julgamento do ministro Marco Aurélio.

Conforme Lindomar
Terena, sem a conclusão da demarcação, os 7 mil indígenas da
Terra Indígena Cachoeirinha vivem em uma área de 2.688 hectares,
sendo que a área reconhecida é de 36 mil hectares. “A gente está
lutando para que seja concluída a demarcação total desta terra”,
explica o indígena.

No mês de abril, o
povo Terena ocupou duas fazendas localizadas na terra indígena: a
fazenda Petrópolis, pertencente ao ex-governador Pedro Pedrossian,
que foi ocupada por um dia; e a fazenda Charqueada, que permanece
ocupada.

As ações resultaram
na visita da Equipe Técnica Federal do Programa de Proteção de
Defensores dos Direitos Humanos (PPDDH), da Secretaria Especial de
Direitos Humanos. Os indígenas fizeram diversas denúncias à Equipe
e recomendaram a inclusão de lideranças Terena no programa de
proteção.

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