MST aposta em assentados para reforçar a sua base

A queda no número de acampamentos e ocupações promovidos por sem-terras
na última década poderia sugerir que um dos mais influentes movimentos
sociais brasileiros perdeu o rumo. Mas o MST, como em outros momentos
de sua história de quase três décadas, mostra que sabe se reinventar.

Nos
últimos dez anos, as fileiras de luta pela reforma agrária perderam
força. Conforme dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT), o número de
acampamentos de sem-terra no país caiu de 65 para 35 entre 2001 e 2010,
enquanto o número de famílias envolvidas recuou de 10.311 para 3.579.
Em 2011, dados parciais até setembro apontam que a tendência se
manteve: são 20 acampamentos com 2.057 famílias.

As ocupações
de terra também diminuíram entre 2001 e 2010, de 194 para 180
ocorrências, e de 26.120 para 16.865 famílias envolvidas. Dados
parciais até setembro indicam manutenção da tendência de queda nas
ocupações, para 144, mas apontam alta no número de famílias envolvidas,
para 17.963 famílias. A dificuldade de mobilização tem várias
explicações: geração de empregos, sobretudo da construção civil, Bolsa
Família e até o desalento com a demora para se conseguir a terra.

Com
o objetivo de virar o jogo, o MST se mexeu em 2011. O movimento colocou
seu peso em uma campanha nacional contra o uso de agrotóxicos.
Militantes se engajaram em programas de agroecologia em assentamentos
da reforma agrária. A luta contra as transnacionais do agronegócio
ganhou força. Ao longo do ano, ficou claro que, para o MST, mobilizar
os assentados da reforma agrária tornou-se tão importante quanto
agrupar os sem-terra.

Os novos caminhos são fruto de uma oportunidade e de uma necessidade.

De
uma oportunidade porque há no país quase um milhão de famílias de
agricultores egressas do programa de reforma agrária. Boa parte delas
tem identificação com os valores dos movimentos de luta pela terra no
que tange ao desenvolvimento de um modo de produção mais sustentável.
Por que não as envolver em uma luta comum?

A aproximação com a
agricultura familiar também é uma necessidade. Esses pequenos
produtores estão sendo disputados pela agricultura tradicional, que
deseja incluí-los em cadeias produtivas de commodities. O programa
nacional de biodiesel, por exemplo, estimula agricultores familiares a
produzirem cultivos agroenergéticos para as usinas.

Na semana
passada, João Pedro Stedile, um dos líderes do movimento, ao falar
sobre a campanha contra os agrotóxicos, deu exemplos de como a disputa
ideológica pelos assentados e a agricultora familiar está aberta.
Segundo ele, o movimento da reforma agrária lutou para que o curso de
agronomia no campus de Erechim da Universidade Federal da Fronteira Sul
tivesse ênfase em agroecologia. Entretanto, os próprios alunos, muitos
filhos de agricultores familiares, protestaram para que o curso
ganhasse um viés mais tradicional.

Outro exemplo seria a
produção de feijão em assentamentos no Estado de São Paulo. Conforme o
líder do MST, o uso de agrotóxicos está disseminado entre os pequenos
produtores, assim como os malefícios causados por esses químicos à
saúde humana. “Isso já está custando vidas, há casos de câncer de mama
em meninas de 13, 14 anos”, disse Stedile, em palestra no Rio de
Janeiro.

Além de movimentos sociais do campo, a campanha contra
o uso de agrotóxicos envolve sindicatos urbanos, pesquisadores de
universidades públicas e da Fiocruz, e a Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa). O Brasil é campeão mundial em uso desses químicos,
entre eles rótulos que já foram banidos de países da Europa e dos
Estados Unidos por sua alta toxidade.

De acordo com o líder do
MST, o uso intensivo de agrotóxicos é um dos pilares do modelo agrícola
instalado no país na última década. “Essa nova etapa do capitalismo
dominada pelo capital financeiro e as empresas transnacionais impôs um
novo modelo de produção agrícola, cujo objetivo principal é se apoderar
dos bens da natureza, tudo em nome do lucro”, afirmou.

Agora, o
MST conta com os pequenos produtores para ampliar a luta contra esse
modelo. Para aprofundar o debate com as bases, o congresso do MST, que
acontece de cinco em cinco anos e estava previsto para 2012, foi adiado
para o ano seguinte. O movimento dos sem-terra tende a ser cada vez
mais o movimento dos assentados da reforma agrária.


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