Economia verde versus economia solidária

O futuro que queremos”, lema central do documento da ONU, não é outra
coisa senão o prolongamento do presente. Este  se apresenta ameaçador e
nega um futuro de esperança. Num contexto desses, não avançar é
retroceder e fechar as portas para o novo”, escreve Leonardo Boff,
filósofo, teólogo e escritor.

Segundo ele, junto com a “Rio+20 seria um ganho resgatar também a
Estocolmo+40”, pois, continua Leonardo Boff, “nesta primeira conferência
mundial da ONU de 5-15 de julho de1972 em Estocolmo na Suécia  sobre o
Ambiente Humano, o foco central não era o desenvolvimento mas o cuidado e
a responsabilidade coletiva por tudo o que nos cerca e que está em
acelerado processo de degradação, afetando a todos e especialmente aos
países pobres. Era uma perspectiva humanística e generosa. Ela se perdeu
com a cartilha fechada do desenvolvimento sustentável e agora com a
economia verde”.

Eis o artigo.

O Documento Zero da ONU para a Rio+20 é ainda refém do velho
paradigma da dominação da natureza para extrair dela os maiores
benefícios possíveis para os negócios e para o mercado. Através dele e
nele o ser humano deve buscar os meios de sua vida e subsistência. A
economia verde radicaliza essa tendência, pois, como escreveu o
diplomata e ecologista boliviano Pablo Solón, “ela busca não apenas
mercantilizar a madeira das florestas mas também sua capacidade de
absorção de dióxido de carbono”. Tudo isso pode se transformar em bônus
negociáveis  pelo mercado e pelos bancos. Destarte, o texto se revela
definitivamente antropocêntrico como se tudo se destinasse ao uso
exclusivo dos humanos e a Terra tivesse criado somente a eles, e não a
outros seres vivos que exigem também sustentabilidade das condições
ecológicas para a sua permanência neste planeta.

Resumidamente: “O futuro que queremos”, lema central do documento da
ONU, não é outra coisa senão o prolongamento do presente. Este  se
apresenta ameaçador e nega um futuro de esperança. Num contexto desses,
não avançar é retroceder e fechar as portas para o novo.

Há outrossim um agravante: todo o texto gira ao redor da economia.
Por mais que a pintemos de marrom ou de verde, ela guarda sempre sua
lógica interna que se formula nesta pergunta: quanto posso ganhar no
tempo mais curto, com o investimento menor possível, mantendo forte a
concorrência? Não sejamos ingênuos: o negócio da economia vigente é o
negócio. Ela não propõe uma nova relação para com a natureza,
sentindo-se parte dela e responsável por sua vitalidade e integridade.
Antes, move-lhe uma guerra total, como denuncia o filósofo da ecologia
Michel Serres. Nesta guerra não possuímos nenhuma chance de vitória. Ela
ignora nossos intentos. Segue seu curso mesmo sem a nossa presença.
Tarefa da inteligência é decifrar o que ela nos quer dizer (pelos
eventos extremos, pelos tsunamis etc.), defender-nos de efeitos
maléficos e colocar suas energias a nosso favor. Ela nos oferece
informações mas não nos dita comportamentos. Estes devem se inventados
por nós mesmos. Eles somente serão  bons caso estiverem em conformidade
com seus ritmos e ciclos.

Como alternativa a esta economia de devastação, precisamos, se
queremos ter futuro, opor-lhe outro paradigma de economia de
preservação, conservação e sustentação de toda a vida. Precisamos
produzir sim, mas a partir dos bens e serviços que a natureza nos
oferece gratuitamente, respeitando o alcance e os limites de cada 
biorregião, distribuindo com equidade os frutos alcançados, pensando nos
direitos das gerações futuras e nos demais seres da comunidade de vida.
Ela ganha corpo hoje através da economia biocentrada, solidária,
agroecológica, familiar e orgânica. Nela cada comunidade busca garantir 
sua soberania alimentar. Produz o que consome, articulando produtores e
consumidores numa verdadeira democracia alimentar.

A Rio-92 consagrou o conceito antropocêntrico e reducionista de
desenvolvimento sustentável, elaborado pelo relatório Brundland de 1987
da ONU. Ele se transformou num dogma professado pelos documentos
oficiais, pelos Estados e empresas sem nunca ser submetido a uma crítica
séria. Ele sequestrou a sustentabilidade só para  seu campo e assim
distorceu as relações para com a natureza. Os desastres que causava
nela, eram vistos como externalidades que não cabia considerar. Ocorre
que estas se tornaram ameaçadoras, capazes de destruir as bases
físico-químicas que sustentam a vida humana e grande parte da biosfera.
Isso não é superado pela economia verde. Ela configura uma armadilha dos
países ricos, especialmente da OCDE (Organização para a Cooperação e o
Desenvolvimento Econômico) que produziu o texto teórico do PNUMA
Iniciativa da Economia Verde. Com isso, astutamente  descartam a
discussão sobre a sustentabilidade, a injustiça social e ecológica, o
aquecimento global, o modelo econômico falido e mudança de olhar sobre o
planeta  que possa projetar um  real futuro para a humanidade e para a
Terra.

Junto com a Rio+20 seria um ganho resgatar também a Estocolmo+40.
Nesta primeira conferência mundial da ONU de 5 a 15 de julho de1972 em
Estocolmo na Suécia  sobre o Ambiente Humano, o foco central não era o
desenvolvimento mas o cuidado e a responsabilidade coletiva por tudo o
que nos cerca e que está em acelerado processo de degradação, afetando a
todos e especialmente aos países pobres. Era uma perspectiva
humanística e generosa. Ela se perdeu com a cartilha fechada do
desenvolvimento sustentável e agora com a economia verde.

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