Os bancos continuam ganhando muito dinheiro no Brasil. Os balanços já
publicados do terceiro trimestre deste ano revelam que os lucros seguem
turbinados. E a alta rentabilidade está atraindo instituições de outros
países.
Segundo reportagem publicada nesta terça-feira (13) pelo jornal Brasil
Econômico, os grandes bancos no Brasil estão obtendo um retorno sobre o
patrimônio pouco abaixo de 20%. Esse patamar, embora já tenha sido mais
elevado, é muito atrativo e se repete nos bancos públicos que lideraram a
redução dos spreads (diferença entre custo de captação de um banco e a
taxa cobrada do cliente). Já na Europa e nos Estados Unidos, essa
rentabilidade está entre 9% e 10%, segundo os profissionais ouvidos pelo
jornal.
“Esses números mostram que, mesmo com a pequena redução de juros e
tarifas, a rentabilidade no Brasil é quase o dobro do que na Europa e
nos Estados Unidos, apontando que ainda espaço para novas reduções de
juros e tarifas, especialmente no cheque especial e no cartão de
crédito”, avalia o presidente da Contraf-CUT, Carlos Cordeiro.
“Tal rentabilidade faz com que o patrimônio de um banco dobra em poucos
anos, possibilitando adquirir rapidamente outro banco do mesmo tamanho, o
que significa enorme transferência de renda da sociedade para o sistema
financeiro, enriquecendo meia dúzia de banqueiros e acionistas e
prejudicando o desenvolvimento econômico e social do país”, aponta o
dirigente sindical.
Alta rentabilidade atrai bancos estrangeiros
Com essa rentabilidade acima da encontrada em outras grandes economias, o
Brasil volta a atrair o interesse de bancos estrangeiros, que querem
entrar, ou voltar, para o país.
Conforme a reportagem, o suíço UBS, após quase dois anos de espera, deve
receber nesta semana o aval do governo para voltar ao país. “Mesmo
nessa fase atual, com o governo pressionando para que Caixa e Banco do
Brasil derrubassem juros e tarifas, o sistema financeiro brasileiro,
comparado a outras grandes economias, continua muito rentável”, afirma o
sócio diretor da EFC Consultores, Carlos Daniel Coradi.
O caso mais recente de estrangeiro interessado no Brasil é o holandês
ABN Amro. A instituição deixou de operar no país após ser vendido para
um consórcio de bancos em 2007, sendo que o Santander ficou com a
operação brasileira. Sua volta se dá com a compra da instituição CR2,
pela qual desembolsou aproximadamente 25 milhões de euros. Já o BNY
Mellon recebeu autorização da autoridade monetária para atuar como banco
comercial.
Os asiáticos se mostram também como grandes interessados. O coreano
Woori Bank recebeu autorização do governo brasileiro para atuar no país e
o japonês Mizuho Bank comprou o West LB no Brasil em negócio fechado em
julho.
Coradi acredita que as instituições estrangeiras que estão entrando no
Brasil, mesmo com uma operação muito inferior a dos grandes bancos
brasileiros, têm espaço para trabalhar. “Um nicho pouco explorado pelos
estrangeiros é o atendimento a empresas de médio porte. É um público que
devem explorar”, avalia.
O executivo acrescenta ainda que estratégias específicas justificam o
interesse no Brasil. Como exemplo, cita o caso do ABN, que tem uma área
agrícola atuante na Europa. “O Brasil é um grande produtor agrícola e
atuar aqui era um desejo estratégico para o ABN.”
Crescimento da economia brasileira
Além de rentabilidade maior no Brasil do que no exterior, esses bancos
também estão de olho nas perspectivas de crescimento da economia
brasileira, que aumenta a demanda por serviços financeiros e bancários.
Isso pode contribuir para o aumento da participação dessas instituições
no crédito. Os estrangeiros respondiam em setembro, último dado
disponibilizado pelo Banco Central, por 16,7% do crédito do país. Em
2005, essa fatia era de 22,4%.
Essa recuperação, no entanto, deve se dar aos poucos, uma vez que essas
instituições atuam como banco de investimento ou como banco comercial
para conceder crédito a determinado segmento de empresas. Atuação no
varejo, que poderia garantir maiores volumes em ativos, é algo difícil
de acontecer. “Esses bancos não vão conseguir escala para operar no
varejo. É um custo elevado para isso”, afirma o presidente da Austin
Ratings, Erivelto Rodrigues.
Para o executivo, apesar da concorrência no Brasil, esses bancos têm
espaço para atuar porque já tem uma expertise no exterior que contribui,
em especial na intermediação de negócios entre empresas brasileiras e
companhias dos países de origem da instituição.
Na avaliação do analista da Moody’s, Ricardo Kovacs, os benefícios da
vinda de bancos estrangeiros para o Brasil são o aumento da concorrência
e a troca de conhecimento. “No Brasil, eles têm acesso a inovação,
novos produtos, mas também trazem ao país formas diferentes de fazer
negócios.”
Para atuar no Brasil, os bancos estrangeiros precisam de autorização.
Uma forma de encurtar os trâmites burocráticos é comprar uma instituição
já em operação.
Conferência Nacional sobre Sistema Financeiro
Para o presidente da Contraf-CUT, esses novos elementos reforçam ainda
mais a luta dos bancários pela realização de uma Conferência Nacional
sobre o Sistema Financeiro, nos moldes de outros encontros setoriais já
promovidos pelo governo federal nos últimos anos.
“É preciso debater com a sociedade o papel e a atuação dos bancos
públicos e privados, nacionais e estrangeiros, que são concessões
públicas, pois dependem de autorização do Banco Central e, por isso,
devem estar alinhadas com o projeto de desenvolvimento do país e a
universalização dos serviços bancários. O que fazem hoje é exatamente o
inverso do que a sociedade espera”, denuncia Cordeiro.
Na sua avaliação, “as altas taxas de juros e as tarifas exorbitantes
cobradas pelos bancos retiram dinheiro da sociedade, o que contribui
para que o Brasil continue entre os 12 países com pior distribuição de
renda do mundo”.