Na Grécia, Syriza desafia a Troika

Poucas horas depois de ter jura­do fidelidade ao presidente da Repúbli­ca, Karolos Papoulias, o novo primeiro­-ministro da Grécia, Alexis Tsipras, líder do Syriza (Partido da Esquerda Radical), oficializou a aliança com o novo parti­do da direita nacionalista “Anel”, já que este partido rejeitou o “memorando” da Troika e a política de austeridade impos­ta pela União Europeia.
Tal aliança reafirma o “pragmatismo levantino” de Alexis Tsipras, que duran­te toda a campanha eleitoral legitimou o sectarismo para com o partido comu­nista KKE, além de manifestar duas po­sições contraditórias: 1) a populista, pa­ra garantir o voto das camadas popula­res vítimas da política de austeridade; 2) e a europeísta, para acalmar as Bol­sas de Valores e os tecnocratas de Bru­xelas e, assim, tentar abrir o caminho para uma futura renegociação da dívida, juntamente com a possibilidade de ob­ter mais empréstimos para o crescimen­to da economia.
Posições essas que haviam sido confir­madas em primeira mão pelo jornal ale­mão Handelsblatt, pouco antes do Na­tal e depois pelo Financial Times no dia 18, na véspera do fechamento da cam­panha eleitoral.
Por isso, todo o mundo admitia que o Syriza, depois de ter ganhado as elei­ções, faria uma aliança com o novo par­tido social-democrata, “To Potami”, de Stavros Theodorakis (uma cisão do par­tido socialista reformista PASOK), pa­ra, com ele, tentar reformular a agen­da da dívida e as medidas de austeri­dades dentro da lógica social-democra­ta europeia.
Em oposição à solução social-demo­crata havia quem apostava na formação de uma grande frente popular progres­sista e de antiausteridade com o KKE e outras pequenas formações de esquer­da e ecologistas que concorreram nessas eleições sem conseguir o quórum dos 3% – uma frente muito temida nos EUA, on­de o influente diário Wall Street Jour­nal, logo após a vitória do Syriza denun­ciou publicando uma alarmista manche­te com o título: “Alexis Tsipras é o Hugo Chávez da Grécia”.
De fato, a ideia da frente popular pa­recia vitoriosa visto que o Syriza tinha elegido 149 deputados – necessitando, assim, de apenas mais dois para gover­nar com uma maioria absoluta de 151 parlamentares. Por isso, a aliança com os 15 deputados do KKE parecia mais que natural.
Infelizmente, prevaleceu o sectaris­mo contra o KKE enquanto o progra­ma do novo governo foi ditado por um pragmatismo bastante oportunista que optou chamar a direita nacionalista do “Anel” para participar do governo no lu­gar de consolidar a frente progressista e popular.
Fausto Bertinotti, o antigo líder de Ri­fondazione Comunista que teve a res­ponsabilidade de ter destruído esse par­tido com suas elucubrações que aparen­tam um seleto “anticomunismo do sécu­lo 21”, justificou e apoiou a aliança com os nacionalistas de direita ao dizer que “assim Tsipras impediu a formação de um grande bloco de oposição na direita com o Nova Democracia, os neonazistas da Aurora Dourada, os pequenos parti­dos confessionais e regionais e eventu­almente o próprio Anel”.
Porém, Bertinotti não fala da chanta­gem do líder dos nacionalistas, Panos Kammenos, que para sustentar o go­verno de Alexis Tsipras exigiu o Minis­tério da Defesa. Outros defensores eu­ropeus da manobra política de Tsipras argumentam que com a participação do partido “Anel” no novo governo estaria garantida a neutralidade do Exército e da Polícia.
Troika desafiada? – No Syriza, muitos dizem que a opção pragmática de Alexis Tsipras deve ter feito explodir de raiva os tecnocratas da União Europeia, do Banco Central Eu­ropeu (BCE), da Comissão e do Parla­mento Europeu. Os mesmos admitem que a rejeição do memorando e das re­ceitas de austeridade contradiz os con­tatos que Tsipras havia tomado com di­ferentes membros do Parlamento eu­ropeu e da própria Comissão Europeia, tanto que Martin Schultz, presidente do Parlamento e líder da social-democracia alemã em Bruxelas, após o anúncio da aliança com o “Anel”, logo telefonou pa­ra Tsipras agendando uma reunião ur­gente para sexta-feira com vistas a “en­contrar pontos de encontro já que, ain­da, existem várias possibilidades para renegociar a agenda da dívida”.
O próprio presidente do Banco Cen­tral Europeu, Mario Draghi, confirmou a possibilidade de uma renegociação, ex­cluindo, porém, um eventual desconto tal como Tsipras anunciou logo após o fechamento das urnas.
Em resposta, o FMI, pela boca de sua presidente, Christine Lagarde, ao excluir normas específicas em favor da Grécia, declarou ao jornal francês Le Monde que “na zona do Euro existem regras que de­vem ser respeitadas e que não podemos fazer uma exceção apenas para a Gré­cia. Além disso, o que está em discussão não são as consequências das normas de austeridades na Grécia. O que realmente está em discussão é que na Grécia não foram realizadas as reformas estruturais que haviam sido planejadas”.
A este propósito, Mario Draghi lem­brou que “o BCE, sempre que o governo grego o peça, poderá encontrar soluções a meio e a longo termo para a renegocia­ção da dívida, que hoje alcança 380 bi­lhões de euros”.
É bom lembrar que a Troika já liqui­dou um plano de ajuda de cerca de 284 bilhões de euros em favor da Grécia, apesar de 86% desses recursos terem si­do “comidos” pelo setor financeiro.
Foi nesse âmbito que os presidentes do Conselho da Europa, Donald Tusk, da Comissão Europeia, Jean Claude Juncker, e do Eurogrupo, Jeroen Dijs­selbloem, juntamente com Draghi rea­firmaram no último dia 26 a impossibili­dade de cancelar 60% da dívida da Gré­cia, tal como exigiu Tsipras e seu alia­do Panos Kammenos – um cenário que se apresenta bastante complexo porque a própria Angela Merkel e o primeiro­-ministro da Finlândia já admitiram que “a União Europeia pode encontrar solu­ções para as consequências das medidas de austeridade, porém, a dívida deve ser paga mesmo procedendo a outro escalo­namento no tempo”.
O “Dia D”: 25 de fevereiro – Muitos analistas lembram que o go­verno formado por Tsipras tem muito pouco tempo para fortalecer suas posi­ções no embate com a Troika, visto que a Grécia deve receber a última cota do em­préstimo, que de 1,8 bilhão de euros po­de ser elevado para até 7 bilhões, caso o novo governo grego demonstre que pre­tende realizar as reformas estruturais que o FMI e o BCE apontaram no famo­so “memorando”.
No dia 25 de fevereiro, vence outra parcela da dívida que o Banco da Grécia deveria pagar usando uma parte da úl­tima cota do empréstimo da Troika. Po­rém, se o governo grego rejeitar os acor­dos que a Troika assinou com o governo anterior, o pagamento da última parce­la ficará bloqueado durante seis meses. Diante disso, a Grécia corre o risco do default, isto é, da bancarrota.
Esse cenário apresenta dois questio­namentos importantes: a) o que vai fa­zer o governo do Syriza depois do dia 25 se não receber mais a última cota do em­préstimo pactuado pelo governo ante­rior? b) como poderá financiar as medi­das emergenciais que Tsipras prometeu às camadas mais pobres da sociedade?
De fato, para instituir os comedores sociais nos bairros pobres, para pagar o décimo terceiro aos aposentados e aos funcionários públicos que recebem até 12 mil euros por ano, para reabrir a gra­tuidade do serviço de saúde a 2 milhões de pobres e dar-lhes, também, passagem gratuita nos transportes e, mais ainda, dobrar o salário mínimo de 350 para 750 euros onde o governo e as empresas pri­vadas vão pegar os recursos para tanto?
Infelizmente, a Grécia não tem cam­pos petrolíferos como a Arábia Saudita, mas apenas minas de lignito que não va­lem quase nada.
Por outro lado, o fato de chamar um partido notoriamente de direita para to­mar parte de um governo de esquerda somente por este ser contrário a União Europeéia é um grave risco visto que o partido Anel está em desacordo com as reformas estruturais que o Syriza pre­tende fazer após ter resolvido os proble­mas com o pagamento da dívida. Esse fato comporta o grave risco político de desmobilizar as camadas populares que votaram massivamente no Syriza.
A única esperança de contornar essa situação de grave crise está na “bonda­de” do presidente do BCE e na sua capa­cidade em convencer os primeiros-mi­nistros da Alemanha e da Finlândia, An­gela Merkel e Alexander Stubb, bem co­mo o presidente da Comissão Europeia sobre a possibilidade de se esticar ain­da mais os prazos e as parcelas da dívida enquanto outros financiamentos chega­rão para realimentar a economia, sem­pre que o novo governo grego se deci­da em programar medidas contra a eva­são fiscal e uma nova reforma da receita.
De toda a forma, todas as especula­ções, análises e apreciações críticas ou a favor poderão ser avaliadas somente após o dia 25 de fevereiro, isto é, o “Dia D” da Grécia e do governo do Syriza. 

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