Marcha das Mulheres Negras reúne 50 mil pessoas em Brasília contra o racismo

Milhares de pessoas de
todo o país tomaram as ruas de Brasília nesta quarta (18) e
realizaram a primeira edição da Marcha das Mulheres Negras. Os
organizadores estimam que aproximadamente 50 mil manifestantes
participaram do ato para lutar contra o racismo, a violência e as
más condições de vida enfrentadas por essa população.

O
Sindicato dos Bancários de Pernambuco participou da Marcha com a
secretária de Assuntos da Mulher, Eleonora Costa; a secretária-geral
Sandra Trajano; e a diretora Janaína Kunst. O Sindicato, inclusive,
ajudou a organizar as caravanas do estado que participaram do evento
na capital federal.

Para Eleonora, a Marcha dá voz às
mulheres negras e busca políticas públicas de combate ao racismo e
às desigualdades. “Se até uma atriz global, que é modelo de
beleza, como Thaís Araújo, é alvo de xingamentos racistas, imagine
o que não sofremos nós, mulheres negras comuns? Crescemos forçadas
a nos adaptar a um padrão de beleza que não nos inclui. Crescemos
tendo que nos submeter aos piores postos de trabalho, salários
menores, menos oportunidades de ascensão”, denuncia.

>> TV DOS BANCÁRIOS: Sindicato presente no Novembro da Consciência Negra 
>> Leia o folder preparado pelo Sindicato para a Marcha das Mulheres Negras

A
coordenadora do núcleo impulsor da Marcha, Valdecir Nascimento, do
Instituto da Mulher Negra da Bahia (Odara), explicou que, nos últimos
anos, houve um grande processo de reformulação, de mudanças, de
ampliação de direitos, de acesso a políticas e a bens e serviços.
“No entanto, quando a gente faz um recorte racial e de gênero,
identificamos que as mulheres negras, um quarto da população, estão
em condição de vulnerabilidade, de fragilidade, sem garantias”,
disse

Dados do último Censo, de 2010, indicam que as
mulheres negras são 25,5% da população brasileira (48,6 milhões
de pessoas). Isso não garante, entretanto, que elas tenham acesso
aos direitos básicos. Entre as mulheres, as negras são as maiores
vítimas de crimes violentos. De 2003 para 2013, o assassinato de
mulheres negras cresceu 54,2%, segundo o Mapa da Violência 2015:
Homicídios de Mulheres no Brasil. No mesmo período, o índice de
assassinatos de mulheres brancas recuou 9,8%, segundo o estudo feito
pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), a
pedido da ONU Mulheres.

“A Marcha quer falar de como um país
rico como o Brasil não assegura o nosso direito à vida. Queremos um
novo pacto civilizatório para o país. O pacto atual é falido e
exclui metade da população composta por mulheres e homens negros”,
disse Valdecir.

A secretária nacional de Combate ao Racismo
da CUT, Maria Julia Nogueira, afirmou que a marcha é a realização
de um sonho e de uma luta histórica da central. “A CUT diz que
é preciso não aceitar mais o racismo. A democracia só vai se
consolidar quando a sociedade não permitir o racismo. Vamos dizer a
esse Congresso machista e racista que a discriminação racial não
dá mais nesse país”.

Para a vice-presidenta da CUT,
Carmen Foro, a Marcha das Mulheres Negras escreveu uma página da
história no país. “Nós queremos agora que o Brasil pegue o
que nós produzimos e acumulamos ao longo dos séculos e transforme
em política. Temos que enfrentar de fato o racismo, a violência e
que nos reconheça enquanto parte de quem produz a riqueza nesse
país”, definiu.

“Hoje as mulheres negras mostram para
o mundo e para o Brasil a nossa força e resistência. Dizemos ainda
que queremos estar em todos os lugares. É importante marchar pela
implementações de políticas públicas para as negras”,
afirmou Nilma Lino Gomes, Ministra das Mulheres, Igualdade Racial e
Direitos Humanos.

Bastante emocionada, a deputada federal
Benedita da Silva (PT-RJ) afirmou que era um momento histórico
porque a marcha traz a marca e o suor de cada movimento, das donas de
casa que conseguiram adquirir um diploma universitário. “Não
somos uma qualquer. Estamos conseguindo o nosso espaço e marchando
para dizer: não aos projetos que tiram os direitos das mulheres; não
à matança de jovens negros; não à violência contra as mulheres.
Basta de intolerância! Não queremos retrocesso, mas queremos,
sobretudo, defender o Estado Democrático de Direito”.


A
Marcha –
A concentração da 1ª Marcha das Mulheres Negras
começou no Ginásio Nilson Nelson, na região central da capital
federal. O grupo seguiu caminhada em direção à Praça dos Três
Poderes, às 9h.

Junto às bandeiras, estavam a diretora
executiva da ONU Mulheres, Phumzile Mlambo-Ngcuka, ex-vice presidenta
da África do Sul, e a ex-integrante do grupo Panteras Negras e do
Partido Comunista dos Estados Unidos, Angela Davis. Também esteve
presente Gloria Jean Watkins, mais conhecida pelo pseudônimo bell
hooks, autora, feminista e ativista social norte-americana.

A
primeira manifestação que reivindicou os direitos da população
negra no Brasil ocorreu no dia 20 de novembro de 1995. A luta já
apresentou resultados, com políticas mais inclusivas e maior
igualdade. Agora, a Marcha das Mulheres Negras apresenta as novas
pautas em busca de mais direitos.

Ataque à Marcha – O
grupo de golpistas acampado em frente à Esplanada dos Ministérios
com faixas que pedem intervenção militar no Brasil atacou a Marcha
das Mulheres Negras. Integrante do acampamento, um manifestante que
seria policial civil e cuja identidade ainda não foi revelada, foi
preso após dar quatro tiros para o alto quando a marcha passava
diante do Congresso Nacional.

Secretária da CUT de Combate ao
Racismo, Maria Júlia Nogueira, criticou a reação da polícia
militar do DF diante do fato. “Um dos golpistas deu um tiro pra
cima e a polícia chegou como se fosse protegê-los, começou a jogar
spray de pimenta nas mulheres, que estavam em uma manifestação
pacífica. Tanto que durante todo o trajeto não houve qualquer
incidente”, apontou.

Para Júlia, a ação não foi
diferente do que acontece todos os dias nas periferias das cidades
com os negros. “Os trabalhadores são tratados assim nos estados
onde há partidos conservadores no comando”, apontou.

A
deputada federal Janete Pietá (PT-RJ), que acompanhava o ato, disse
que as mulheres também foram atingidas por bombas.

Sindicato
na MarchaO Sindicato,
que tem entre suas bandeiras a igualdade de oportunidades para todos,
independentemente de gênero, raça ou orientação sexual e
identidade de gênero, também ajudou a organizar a marcha.

A
entidade participou de várias atividades de formação,
preparatórias para o evento. Em julho, por exemplo, participou do V
Seminário da Mulher Negra, promovido pelo Coletivo de Mulheres
Negras. Em setembro, a militante histórica do movimento negro em
Pernambuco, Vera Baroni, falou sobre “Ancestralidade e identidade
negra brasileira”.

E, em outubro, a Secretaria de Igualdade
Racial da CUT-PE promoveu seminário sobre a Resistência do Povo
Negro, com objetivo de desconstruir o mito da igualdade racial no
Brasil, debater os desafios para superação das desigualdades e
estratégias de organização do movimento negro.

O setor
bancário é um dos que mais sofre com a falta de diversidade e a
discriminação. No último Censo da Diversidade nos Bancos,
divulgado em novembro de 2014, o Sindicato identificou uma
necessidade especial para inclusão das mulheres negras. Hoje, 81%
dos bancários são brancos e 19% negros. E, entre os negros, 16,7%
são pardos e apenas 2,3% são pretos. Destes 2,3%, somente um terço
são mulheres (leia mais).  

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