Anuário inédito do Dieese e governo reúne dados sobre mulheres no Brasil

Pela primeira vez uma série de
estatísticas sobre a situação da mulher no Brasil aparece reunida
em uma única publicação. Trata-se do Anuário das Mulheres
Brasileiras, uma parceria entre o Dieese (Departamento Intersindical
de Estatística e Estudos Socioeconômicos) e a Secretaria de
Políticas para Mulheres do Governo Federal, lançado nesta
segunda-feira 4, em São Paulo.

A edição é dividida em oito
capítulos: Demografia e Família, Trabalho e Autonomia da Mulher,
Trabalho Doméstico, Infraestrutura e Equipamento Social, Educação,
Saúde, Espaços de Poder e Violência. E compara dados sobre homens
e mulheres em relação a atividades econômicas, cargos no emprego,
rendimentos, tempo gasto com tarefas domésticas, escolaridade,
mortalidade, representação na política (no sindicalismo e nos
poderes municipais, estaduais e federais), proporção por sexo de
vítimas de violência física e de homicídios, entre outros. Além
da comparação por gênero, as informações têm ainda o recorte de
raça, faixa etária e região.

Segundo a presidenta do
Dieese, Zenaide Honório, o mérito da publicação não é trazer
grandes novidades, já que retrata uma situação de desigualdade
entre os sexos no Brasil mais ou menos conhecida. Mas sim de reunir
dados que se encontravam dispersos em diversas fontes, com o objetivo
de embasar melhor as ações e políticas públicas.

“Nós
mulheres sabemos muito bem a disputa que temos de travar em diversos
momentos. Apesar de pouco mais da metade da população do país e da
crescente representação no mercado de trabalho, ainda temos os
menores salários e ocupamos os cargos mais baixos”,
exemplificou.

A desigualdade se reflete ainda na política.
“No movimento sindical, por exemplo, somos minoria até quando a
categoria é predominantemente feminina.” Ela ilustra com a
história da Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do
Estado de São Paulo), da qual é diretora.

“No setor da
educação as mulheres são maioria, mas nos 64 anos da entidade só
tivemos duas mulheres na presidência, uma delas acabou de se
reeleger.” A situação das mulheres ainda se agrava com a
questão de raça. “No caso das mulheres negras, a desigualdade
é significativamente maior”, ressaltou.

Governo –
“Precisamos conhecer para pressionar e transformar”,
afirmou a representante da Secretaria de Políticas para Mulheres
(SPM) da Presidência da República, Angélica Fernandes.

“O
anuário nos dá elementos para aperfeiçoar políticas de promoção
da autonomia econômica das mulheres, de promoção da cidadania e
garantia de direitos, de investimentos em infraestrutura e
equipamentos públicos, e contra a violência. Temos de aproveitar o
momento em que o país é pela primeira vez governado por uma mulher,
para consolidar avanços.”

Fontes – Os dados do
Anuário foram coletados de estudos do próprio Dieese e de fontes
oficiais do governo como Rais (Relação Anual de Informações
Sociais), do Ministério do Trabalho e Emprego; Pnad (Pesquisa
Nacional por Amostra de Domicílios); PED (Pesquisa de Emprego e
Desemprego); estatísticas do TSE (Tribunal Superior Eleitoral); e do
Departamento de Informática do SUS (Datasus). E mostram que, apesar
dos avanços, as mulheres ainda vivem situações que “aviltam
seus direitos no Brasil”, segundo o diretor técnico do Dieese
São Paulo, Clemente Ganz Lúcio.

“A diferença entre
homens e mulheres, que é rica e deveria ser valorizada, acaba sendo
usada para justificar a desigualdade que se reproduz em diversos
contextos: seja na família, no trabalho, na vida pública, no acesso
à educação e saúde”, disse.

Trabalho – O
mercado de trabalho ilustra essa desigualdade. “De cada 100
homens aptos ao trabalho, 81 estão ativos. De cada 100 mulheres
aptas, apenas 58 estão no mercado. Além disso, elas ganham entre
30% a 40% menos que os homens, dependendo da região, e ocupam os
cargos mais baixos em diversos setores da economia”, ressaltou
Clemente.

Para o diretor do Dieese, dados como esses devem
embasar não só as políticas do governo, mas também a atuação
dos sindicatos. “Os estudos mostram que a carência de
equipamentos como creches e escolas é impeditiva para a entrada da
mulher no mercado de trabalho e sabemos, por outro lado, que o
trabalho é fundamental na conquista da autonomia. Portanto, a
atuação do movimento sindical na luta por direitos para as mulheres
e na superação das desigualdades é fundamental.”

Igualdade
de oportunidades –
Presente ao lançamento, a presidenta do
Sindicato, Juvandia Moreira, ressaltou que os estudos do Dieese
sempre ajudaram os bancários nas negociações, e lembrou que a
categoria tem mesas temáticas de negociação com a federação dos
bancos sobre assuntos específicos de interesse dos trabalhadores. E
a questão de gênero – assim como de raça, credo e orientação
sexual – é tema de uma delas: a de igualdade de
oportunidades.

“Sabemos que no setor financeiro as
mulheres ocupam os cargos de menores salários e são dados como
esses que nos ajudam a forçar avanços nas negociações”,
disse.

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